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sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

O PENSAMENTO SOCIAL DOS REFORMADORES


O PENSAMENTO SOCIAL DOS REFORMADORES  


Oaidson Bezerra e Silva

         
Em comemoração aos 498 anos da reforma protestante, esse post trata sobre um dos aspectos revolucionários oriundos da reforma. Olhando para esse movimento e sua profunda influencia no mundo ocidental, não podemos deixar de agradecer a todos aqueles que entregaram suas vidas até as ultimas consequências por aquilo que acreditavam: o retorno e a submissão da igreja ao senhorio de Cristo e Sua palavra.
A reforma tem suas raízes muito antes de 1517, porém foi nessa data que Martinho Lutero afixa suas 95 teses na abadia de Westminster, dando inicio ao que conhecemos como reforma protestante. Não iremos abordar a reforma em si, mas um dos resultados práticos quando nos voltamos para as sagradas escrituras.

 Lutero fixa e suas 95 teses na abadia de Westmister

No século XV e XVI, durante o movimento que ficou conhecido como Reforma, Calvino e Lutero, nomes centrais desse movimento e considerado, por muitos, pais das igrejas protestantes atuais, escreveram sobre a questão da pobreza e o compromisso da igreja cristã ante essa problemática.
 Lutero foi o responsável pela tradução da bíblia, que antes escrita em latim, para a língua alemã, com isso influenciou a língua e literatura germânica que surgiria mais tarde. A época em que viveu foi marcada por mudanças nos setores de produção e cultivo do material de subsistência. Novos mercados surgiram, havia fabricas que produziam em escalas maiores. A exploração de minério e vidro também estava em alta. Com esse tipo de produção houve um grande acumulo de capital, que voltava para a produção, posto de empregos e assalariamento surgem, era uma espécie de pré-capitalismo. Rietch (1995) observa:
A concentração econômica nas mãos de poderosas casas comerciais – Fugger, Welser e Höchstetter estavam entre as mais destacadas – deveu-se em muito à participação direta de algumas delas no financiamento da invasão e conquista do Novo Mundo, bem como aos enormes lucros advindos do daí decorrente comércio com as colônias[1].
Martinho Lutero foi um homem que sentiu dolorosamente as contradições sociais existentes. As famosas noventa e cinco teses, afixadas na abadia de Westminster (1517), revelam, em alguns trechos, o pensamento de Lutero da responsabilidade do cristão com o próximo. A tese quadragésima terceira e quarta dizem:
                                     Deve-se ensinar aos cristãos, procede melhor quem dá aos pobres ou empresta ao necessitado do que os que compram indulgência. É que pela obra de caridade cresce o amor ao próximo e o homem torna-se mais piedoso; pelas indulgências, porém, não se torna melhor senão mais seguro e livre da pena.
Para esse reformador, todo cristão é um sacerdote, livre para viver uma vida de serviço de amor a Deus e ao próximo. A mudança social começa com a liberdade baseada na justificação alcançada pela graça, e isso mediante a fé, que resulta num compromisso real não somente com Deus, mas com a sociedade. Lutero registra, que o cristão que enxerga seu próximo padecer necessidade e gasta seu dinheiro com indulgencias atrai a ira de Deus[2].
Max Weber (1864-1920) em seu livro “A ética protestante e o Espirito do Capitalismo” explica a concepção de Lutero sobre vocação, onde todos os homens (gênero) recebe uma tarefa outorgada por Deus, que cria algo que é indiscutivelmente novo:
a valorização do cumprimento do dever nos afazeres seculares como a mais alta forma que a atividade ética do indivíduo pudesse assumir segundo e isso foi um dos principais.[3]
Ainda de acordo com Weber o pensamento dos reformadores era que a vida do cristão aceitável a Deus, não era uma vida enclausurada num ascetismo exacerbado buscando uma moralidade distante do mundo, mas uma vida onde suas obrigações consigo mesmo e com os outros fossem cabalmente cumpridas, isso era sua vocação[4].         
A educação foi outro grande instrumento de mudança social aplicado por Lutero, ele acreditava que a educação seria o melhor e o mais eficaz agente de mudança social. As noventa e cinco teses publicadas por ele, circulou em quase todas as casas da Alemanha e levou a cada grupo e família a ler e debater cada tese, levando a uma ação de educação revolucionaria para época[5]. Nesse sentido Lutero não foi somente um reformador religioso, mas um reformador religioso e social.         
Do outro lado da reforma, mas não menos importante, temos João Calvino (1509-1564). Nascido em Noyon, Genebra, foi um dos grandes nomes da Reforma. O pensamento de Calvino influenciou e continua influenciando grande parte dos cristãos protestantes de hoje. Foi, ainda, um grande transformador da realidade social de Genebra, Suíça, sua cidade natal.

João Calvino

 A cidade de Genebra, assim como outros lugares da Europa do século XVI, enfrentava um período de instabilidade. O papa e as autoridades eclesiásticas enfrentavam um grande descontentamento por parte do povo. A venda de indulgências causou revolta. A pobreza contrastava com a riqueza do clero.  
Calvino, após sua conversão, foi convidado por Farel, um dos precursores da reforma na Suíça, a ajudar nos problemas sociais que existiam naquela cidade. De acordo com Biéler (1961) Calvino foi intimado e logo começou a trabalhar no sentido trazer mudanças aquela cidade:
 Farel intimou Calvino a vir para a Suíça, dizendo que Deus iria amaldiçoá-lo se recusasse. Chegando a Genebra, vendo a miséria e a corrupção de costumes aí reinantes, organizou um consistório composto por pastores e leigos que tinha autoridade para controlar a conduta dos cidadãos: o consistório determinava o vestuário, o comportamento; proibia a bebida, o jogo e a dança. Havia uma disciplina bastante severa com o objetivo de moralizar os costumes. Foram estabelecidas rijas regras de comportamento, era proibida a vadiagem e o comerciante ficava impedido de roubar no peso, ou cobrar além do preço justo.[6].
Incentivou o trabalho, o valor da fraternidade, a ajuda aos necessitados, o descanso semanal, e vários outros. Devido sua atuação Genebra se tornou exemplo para os cristãos. Em pouco tempo a pobreza ali foi reduzida drasticamente.  O ensino foi outro ponto forte de total apoio e incentivo por Calvino, ele acreditava que todos poderiam entender melhor a bíblia se possuíssem ensino elementar, por isso fundou a Academia de Genebra, local onde pastores iriam ministrar educação aos fiéis.
A justiça social, a abolição de classes, a igualdade faziam parte das preocupações de Calvino. A organização eclesiástica de Calvino demostrava, também, seu apelo social. A igreja era dividida em pastores, doutores, presbíteros e diáconos. Os pastores ficariam conectados as questões doutrinais da igreja, os doutores a educação, os presbíteros à disciplina e os diáconos as questões sociais. O serviço diaconal, no pensamento de Calvino, volta a ser como nas paginas neotestamentárias onde o serviço de distribuir as ofertas dos mais ricos aos pobres necessitados é colocado em pratica.             
Os bens deveriam servir a todos. Quem muito possuísse deveria, por obrigação, socorrer e dar amparo aos pobres. Cabia à igreja dar suporte necessário aos pobres, órfãos, viúvas, doentes e todos necessitados, pois:
A cada passo se pode encontrar, tanto nos decretos dos sínodos, quanto nos escritores antigos, que tudo quanto a Igreja possui, seja em propriedade, seja em dinheiro, é patrimônio dos pobres[7]”. 
           
E se fosse necessário, de acordo com Calvino, os bens da igreja e até as vestes sacerdotais deveriam ser vendidas para sustento dos pobres. As transformações decorrentes da Reforma, através de Calvino e Lutero foram muito mais profundas do que relatamos acima, e pode ser tema de estudos específicos com uma gama de material histórico para tal.

Soli Deo Gloria!






[1] Rieth, Ricardo. Economia Introdução ao Assunto in: KAYSER, Ilson. Martinho Lutero Obras Selecionadas., Rio Grande do Sul, Sinodal e Concórdia Editora Ltda, 1995, pg. 367.
[2] 45ª Tese.
[3] WEBER, Max, 1864-1920, A ética protestante e o espirito do capitalismo, 2ª ed. rev., São Paulo, SP, Pioneira Thomson Learning, 2005, pg.34.
[4] Ibid. pg. 34 e 35.
[5] KEIM, Ernesto Jacob, A educação e a revolução social de Martinho Lutero, Eccos Revista Científica, vol. 12, núm. 1, São Paulo, SP, 2010, pg. 223.
[6] BIÉLER, André. O humanismo social de Calvino. São Paulo: Edições Oikoumene, 1961, pg 99.
[7] Institutas de Calvino, livro IV cap. IV item 6.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

ÓRFÃOS, E A IGREJA!

ÓRFÃOS, E A IGREJA!


             

              Já parou pra pensar quantos órfãos existem no mundo?
           De acordo com dados do Fundo da ONU para a Infância (Unicef), 3,7 milhões de crianças brasileiras são órfãs de pai ou de mãe. O Brasil está na nona posição entre os países em desenvolvimento com o maior número de órfãos no mundo. Estima-se que existam mais de 16 milhões de órfãos no mundo que perderam seus pais para Aids, e isso, segundo a ONU, representa metade dos órfãos existentes no mundo.
             Você consegue imaginar a dor de um órfão? Muitos deles abandonados pelos pais ou retirados de suas famílias devida as condições sociais que vivem ou mal tratos sofridos por parte daqueles que lhe deveriam  dar amor e suporte no inicio de suas vidas. Eles vivem em verdadeiras prisões, pelo menos é assim que entendo os orfanatos no Brasil, sem voz, personagens que não vistos ou lembrados por muitos.

             A proposta desse pequeno estudo é mostrar que Deus se importa com aqueles que sofrem por viver nessa condição social. E por se importar, direcionou seu povo e, posteriormente, sua igreja para não agir passivamente diante dessa realidade, muitas vezes cruel e desumana. 

             A legislação veterotestamentária dava direcionamento quanto ao auxilio aos órfãos.
            Não sofrer qualquer espécie de tortura, fosse ela física ou moral, era o direito básico do órfão segundo a Tora, o texto de Êxodo 22.22 mostra que o órfão não deveria ser “afligido” [1], era exigido do cidadão hebreu dar alimento e roupa, e isso era uma maneira de “fazer justiça” [2].
            Do dizimo arrecado pela nação, os órfãos, junto às viúvas, estrangeiros e levitas, a cada três anos poderiam participar. Eles poderiam participar das festas de Israel sem constrangimentos.
            A lei da sega ou das colheitas encontrada no livro de Levítico (19.9-10; 23.22) e Deuteronômio (23.24-25; 24.19-22) davam amparo aos que viviam nessas condições, uma parte do que era colhido ou deixado de colher deveria ser dado livremente aos pobres, entre eles os órfãos detinham esse direito.
            E o mais importante, Deus deu a ordem, ninguém poderia perverter, transgredir ou omitir o direito dos órfãos sob a pena de maldição divina (cf. Deuteronômio 24.17; 27.19).
            Nos Salmos Deus é chamado de auxilio e protetor dos órfãos (cf. Salmos 10.14; 68.5; 146.9). Ainda nos Salmos o povo é conclamado a “fazer justiça” ajudando aos órfãos (cf. Salmos 10.18; 82.3). No livro sapiencial dos Provérbios, onde é exaltada a sabedoria, pede-se respeito à herança dos órfãos (Provérbios 23.10).
            Os profetas do antigo testamento, por varias vezes, denunciam abusos e exclusões que eles sofriam e em alguns casos o povo hebreu ouvia as denuncias e profecias ligadas a esse trato social. Isaías, por exemplo, afirma que Deus já não se agradava das ofertas, sacrifícios realizados pelos religiosos hebreus e asseverava que eles precisavam aprender a “fazer o que é bom, tratar os outros com justiça; socorrer os que são explorados, defender os direitos dos órfãos e proteger as viúvas.” (Isaías 1.17 NTLH, grifo nosso).
           A denuncia do profeta Isaías continua com os lideres de sua época, que por ganância esqueciam-se dos carentes (cf. Isaías 1.23; 10.2). Os profetas Jeremias e Ezequiel também fazem a mesma denuncia (cf. Jeremias 5.28; Ezequiel 22.6-7) e mostra que algumas promessas feitas pelo grande Deus de Israel estavam condicionadas ao tratamento que os hebreus iriam dar aos órfãos (cf. Jeremias 7.6; 22.3). Já Oséias lembra que a misericórdia ao órfão vem de Deus (Oséias 14.3).
            Em uma época de crises, de formação e de desenvolvimento de uma nação, vemos o cuidado de Deus para com os órfãos
            Você pode estar perguntando: E o novo testamento?
             Os órfãos na antiguidade faziam, e ainda fazem, parte da classe social chamada de pobres. Há alguns meses, comentamos sobre os pobres e o novo testamento. Você pode ver no link: (http://geracaojovemphb.blogspot.com.br/2015/12/a-pobreza-e-biblia-novo-testamento.html).
           O novo testamento aplica alguns princípios: Todos são iguais (Gálatas 3.28), o amor deve ser direcionado ao próximo ( Mateus 22.39), e que o próximo são todos aqueles que eu posso fazer o bem (Lucas 10.29-37). 
           Especificamente sobre os órfãos é impressionante é o que Tiago afirma: 
  A  religião pura e imaculada diante de nosso Deus e Pai é esta: Visitar os órfãos e as viúvas nas suas aflições e guarda-se isento da corrupção do mundo  (Tiago 1.27  grifo nosso)
     A igreja tem uma obrigação, e nós não podemos fugir dela. Ser fiel a palavra à palavra é nossa obrigação, e isso inclui visitar os órfãos. A palavra traduzida como visitar (grego episkeptomai) significa literalmente cuidar, preocupar, examinar a fim de saber como estar, ser responsável.  
    O nosso convite é pra você, que faz parte da igreja! Lembre-se daqueles que vivem sob a égide das injustiças sociais, você pode orar por essas pessoas, mas não somente isso, tenha atitude! Faça algo! Visite! 
   Ou, quem sabe, você pode, futuramente, pensar em adotar uma criança, e assim ser usado por Deus para ajudar uma vida. 
 
   
Oaidson Bezerra e Silva



     

  
             




[1] O vocábulo hebraico para “afligir” (hne ‘anah), de acordo com STRONG  tem o sentido de: oprimido, humilhado, rebaixado, maltratado. (LÉXICO HEBRAICO, ARAMAICO E GREGO DE STRONG; 2002, Sociedade Bíblica do Brasil, 2ª Ed.)
[2] Deuteronômio 10.18

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

1% DA POPULAÇÃO DETÉM 99% DA RIQUEZA DO MUNDO







A riqueza acumulada pelo 1% mais abastado da população mundial agora equivale, pela primeira vez, à riqueza dos 99% restantes. Essa é a conclusão de um estudo da organização não-governamental britânica Oxfam, baseado em dados do banco Credit Suisse relativos a outubro de 2015.


O relatório também diz que as 62 pessoas mais ricas do mundo têm o mesmo – em riqueza – que toda a metade mais pobre da população global. O documento pede que líderes do mundo dos negócios e da política reunidos no Fórum Econômico Mundial de Davos, que começa nesta semana, na Suíça, tomem medidas para enfrentar a desigualdade no mundo.


A Oxfam critica a ação de lobistas – que influenciam decisões políticas que interessam a empresas – e a quantidade de dinheiro acumulada em paraísos fiscais.


Ressalvas
Segundo o estudo da Oxfam, quem acumula bens e dinheiro no valor de US$ 68 mil (cerca de R$ 275 mil) está entre os 10% mais ricos da população. Para estar entre o 1% mais rico, é preciso ter US$ 760 mil (R$ 3 milhões).



Isto significa que uma pessoa que possui um imóvel médio em Londres, já quitado, provavelmente está na faixa do 1% mais rico da população global. No entanto, há várias ressalvas a estes números. O próprio Credit Suisse reconhece que é muito difícil conseguir informações precisas sobre os bens e dinheiro acumulados pelos super-ricos.


O banco diz que suas estimativas sobre a proporção de riqueza dos 10% e do 1% mais ricos “podem estar subestimadas”. Além disso, os números incluem estimativas colhidas em países nos quais não há estatísticas precisas.


A Oxfam afirmou que o fato de as 62 pessoas mais ricas do mundo acumularem o equivalente à riqueza dos 50% mais pobres da população mundial revela uma concentração de riqueza “impressionante”, ainda mais levando em conta que, em 2010, o equivalente à riqueza da metade mais pobre da população global estava na mão de 388 indivíduos.


“Ao invés de uma economia que trabalha para a prosperidade de todos, para as gerações futuras e pelo planeta, o que temos é uma economia (que trabalha) para o 1% (dos mais ricos)”, afirmou o relatório da Oxfam.


Tendência
A Oxfam verificou que a proporção de riqueza do 1% dos mais ricos vem aumentando a cada ano desde 2009 – depois de cair de forma gradual entre 2000 e 2009.



A ONG britânica pede que os governos tomem providências para reverter esta tendência. A Oxfam sugere a meta, por exemplo, de reduzir a diferença entre o que é pago a trabalhadores que recebem salário mínimo e o que é pago a executivos.


A organização também quer o fim da diferença de salários pagos a homens e mulheres, compensação pela prestação não remunerada de cuidados a dependentes e a promoção de direitos iguais a heranças e posse de terra para as mulheres.


A ONG britânica quer também que os governos imponham restrições ao lobby, reduzam o preço de medicamentos e cobrem impostos pela riqueza em vez de impostos pelo consumo.

O que você acha disso?



Fonte: Renas (Notícia publicada originalmente pela BBC Brasil)

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

A POBREZA E A BÍBLIA - NOVO TESTAMENTO

O Espírito do Senhor está sobre mim, pelo que me ungiu para evangelizar os pobres; enviou-me para proclamar libertação aos cativos e restauração da vista aos cegos, para pôr em liberdade os oprimidos, e apregoar o ano aceitável do Senhor.
Jesus Cristo
     
  O novo testamento não difere do antigo testamento em vários aspectos. Algumas leis e vários costumes foram, no novo testamento, abolidos, mas a responsabilidade social ante a pobreza e os efeitos colaterais causados por ela são lembrados a todo instante. Quando permeamos os evangelhos, o livro histórico neotestamentário, as cartas paulinas, as cartas universais e o livro da revelação (APOCALIPSE) fica evidente o que afirmamos acima.
             Olhando para a língua em que foi escrito o novo testamento (grego) encontramos os seguintes termos para pobre e pobreza: penichros (penicrov) significando pobre e necessitado, ptochos (ptwcov) que traz o sentido de aquele que foi reduzido à pobreza, mendicância, pedinte, desamparado, indigente, destituído de cultura intelectual que as escolas propiciam, penes (penhv) somente pobre e husterematos (husterematov) que significa pobreza, falta ou deficiência daquilo que se precisa, necessidade. Todos esses termos são aplicados de maneira objetiva no novo testamento, mostrando que a pobreza jamais é esquecida por Deus.
            A pregação do evangelho não veio somente para os socialmente privilegiados, o evangelho não era uma ferramenta de libertação politica da escravidão vivida pelos judeus como consequência da opressão romana que dominava o mundo de então, mas, Jesus, no evangelho de Lucas 7.18-22, mostrara que sua missão, e uma das provas que ele de fato era o Messias prometido, se devia ao fato de que o evangelho estava sendo pregado aos pobres. Os socialmente desfavorecidos não são esquecidos nas paginas do novo testamento, por isso a igreja ou aqueles que se chamam cristãos não podem esquecê-los, e é justamente este o proposito de nossa fundamentação teórica desse item formado a partir do novo testamento.
              O novo testamento trata da pessoa central e mais importante para o cristianismo, Jesus Cristo. Os seus ensinos e os efeitos desses ensinos que foram registrados servem de modelo para a igreja cristã do século XXI. O próprio Jesus em suas palavras registradas no evangelho de João (20.21) se coloca como modelo a ser seguido, os apóstolos imita a Cristo e incentivam os cristãos a fazê-lo também: “Sede meus imitadores, como também eu sou de Cristo.” (1CORINTIOS 11.1). A incontestável verdade é que sem a pessoa de Cristo e de seus ensinos não há cristianismo.
            Jesus era pobre. Os evangelhos registram o nascimento de Jesus em uma família socialmente pobre. Maria e José não têm títulos e nem influência. A afirmativa de que eles eram pobres esta registrada em Lucas 2.23-24 (você pode comparar com Levítico 12.8), onde durante a consagração de Jesus eles levam um casal de pombos, mostrando a falta de condições de oferecer um sacrifício de um animal maior, um cordeiro por exemplo. Jesus nasceu numa manjedoura, não num palácio, como acreditavam alguns em sua época.
             A cidade natal de Jesus, Belém, talvez nunca tivesse a notoriedade que tem hoje se ele não tivesse nascido lá. A infância e adolescência de Cristo foram vividas em outra cidade subdesenvolvida, a cidade de Nazaré, mais tarde um homem chamado Natanael duvida de Jesus quando toma conhecimento de sua cidade: “De Nazaré pode sair alguma coisa boa?” (JOÃO 1.46). A entrada de Jesus em jumentinho narrada no evangelho de Mateus 21.1-16, mostra o estilo que ele trazia consigo. Carlos Queiroz (1998) diz que Cristo era um tipo de rei que afrontava os modelos estratificados da sociedade. A profissão de seu pai, carpinteiro, revela outra parte da realidade social vivida por Jesus. Durante seu ministério dependeu de um grupo de mulheres que o sustentava e não possuía um lar (Lucas 8.2 e 9.58).
            Os judeus de seu tempo atribuía a pobreza uma espécie de maldição divina e a riqueza como evidência da benção do divino. O estilo de vida de Cristo contradiz esse paradigma judeu, afinal Cristo vive sem pecados e mesmo assim assume uma condição de pobreza.  Porém, a pobreza não deve ser encarada, biblicamente, como uma virtude, mas, como um mal a ser eliminado e com o qual Deus mostra profunda preocupação.   
            A missão de Cristo é afirmada por ele quando, citando Isaías 61.1-2, diz:
O Espírito do Senhor está sobre mim, pelo que me ungiu para evangelizar os pobres; enviou-me para proclamar libertação aos cativos e restauração da vista aos cegos, para pôr em liberdade os oprimidos, e apregoar o ano aceitável do Senhor.
            Note que o texto diz claramente que uma das prerrogativas ministeriais de Cristo era a anunciação do evangelho aos pobres. Isso também foi confirmado quando Cristo afirma a João Batista que em Lucas 7.22 que “aos pobres é anunciado o evangelho”. Os discípulos escolhidos por Jesus eram   pobres. O estilo de vida de Jesus e a escolha de seus discípulos coadunam com o ensino registrado em Tiago 2.5: “Ouvi, meus amados irmãos. Não escolheu Deus os que para o mundo são pobres, para serem ricos em fé e herdeiros do reino que ele prometeu aos que o amam?”. 
             Ele conviveu com pecadores e publicanos, acolheu pobres, libertou prostitutas, curou aqueles que viviam as margens da sociedade, ensinou a estrangeiros discriminados pelo seu povo, como o caso da mulher samaritana (JOÃO 4.1-30). Até em sua morte podemos ver seu estilo de vida, ele não tinha um tumulo para ser sepultado, e só o teve pela generosidade de um homem rico chamado José de Arimatéia. Isso nos remete ao que o apóstolo Paulo escreveu em 2 CORÍNTIOS 8.9 : “pois conheceis a graça de nosso Senhor Jesus Cristo, que, sendo rico, se fez pobre por amor de vós, para que, pela sua pobreza, vos tornásseis ricos.”
            Houve dois homens ricos que foram ao encontro de Jesus, o primeiro um jovem riquíssimo que ouviu que deveria vender tudo o que tinha e dar aos pobres e depois seguir a Cristo (LUCAS 18.22,23), mas não conseguiu faze-lo. No celebre sermão do monte Jesus fala que não se pode servir a Deus e as riquezas (MATEUS 6.24), as riquezas para o cristão, e de acordo com ensino de Cristo, deve estar a favor dos homens e nunca contra os homens, ela deve ajudar e não separar, o desprendimento em relação à riqueza e aos bens materiais é necessário para que haja justiça, e essa justiça deve ser praticada por aqueles que querem seguir a Cristo.
            Em outros textos, Jesus da à mesma ênfase que foi dada ao jovem rico, Lucas 12.33 e 14.33 indicam que a riqueza não pode ser um empecilho, um óbice, para aqueles que querem se tornar discípulos de Cristo. Outro pensamento extraído destes textos é que as riquezas não devem servir de bens para desfrute de pequenas massas egoístas, mas devem servir de bem comum à humanidade, suprindo a necessidade de todos igualmente.
            A visão de posses de acordo com o pensamento de Cristo difere dos padrões vividos por muitos cristãos de hoje.  O segundo homem foi Zaqueu, que trabalhava na cobrança de impostos, após encontrar-se com Jesus decide doar metade de seus bens aos pobres. A atitude de Zaqueu leva a declaração de Cristo “hoje veio salvação a esta casa”, ao que o texto denota o sinal de conversão foi o desprendimento em doar, em ajudar.
          No evangelho de Mateus 25. 35-45 Jesus afirma que um dos critérios usados por Deus no julgamento, se dará com base nas atitudes do homem em relação ao socialmente desfavorecidos. A atitude correta, de acordo com esse trecho, é saciar a sede dos sedentos, saciar a fome dos famintos, vestir os que estão nus, dar abrigo aos estrangeiros, prestar auxilio aos enfermos e encarcerados. Em suma Jesus Cristo se fez pobre, pregou aos pobres, se dou aos pobres e ensinou a atitude correta que devemos ter diante dos pobres.
          Os pobres foram alvo das mensagens de Cristo veja o que evangelista Lucas registrou: “então, olhando ele para os seus discípulos, disse-lhes: Bem-aventurados vós, os pobres, porque vosso é o reino de Deus” (LUCAS 6.20). Não podemos negar o cuidado de Cristo para com o pobre, mas e a igreja? Será que em seus primórdios houve a mesma compaixão, a mesma visão? Os continuadores da propagação do evangelho levaram a mesma mensagem de amor ao próximo e cuidado aos desfavorecidos? Indubitavelmente, podemos afirmar que a igreja primitiva[1] e os discípulos de Cristo continuaram o legado de amor, respeito e ajuda aos pobres.
            Continuamos nossa pesquisa através dos livros neotestamentários. O livro histórico do novo testamento, Atos dos apóstolos ou simplesmente Atos, trata da formação da igreja e da continuidade da pregação da mensagem de Cristo pelos seus discípulos. Em meio a perseguições e acontecimentos surpreendentes a igreja cristã começa a ser formada. O inicio da igreja é marcado por um profundo zelo pela pureza da mensagem cristã, pela tarefa árdua de anunciação dessa mensagem e pela prática incansável e indelével da igreja para aplicar a mensagem de Cristo integralmente.   
            Os textos de Atos 2.42-45 e 4.32-35 mostra o modo de como os primeiros cristãos viviam. A visão do bem comum, onde todos os bens pertenciam a todos, era aplicada, os primeiros cristãos não visavam individualmente suas propriedades, mas os bens pertenciam a generalidade, é o que o adjetivo grego para comum koinos (koinov), que aparece no verso 44, exprime. O trecho de 4.32-35 revela um tipo de sentimento que havia entre os neófitos e os cristãos de fé arraigada, havia unanimidade, os bens deveriam servir a todos, eles dividiam uns com os outros tudo que eles tinham, e o resultado desse tipo de sociedade é expresso no verso 34 e 35, onde fica visível a eliminação da pobreza:
“Não havia entre eles nenhum necessitado, pois todos os que tinham terras ou casas as vendiam, traziam o dinheiro e o entregavam aos apóstolos. E cada pessoa recebia uma parte, de acordo com a sua necessidade.” (NTLH).
            Ressaltamos que essa comunidade cristã não agia dessa forma por obrigação ou exigências impostos pelos apóstolos, como aconteceu com os essênios que repartiam seus bens por uma imposição legalista, mas simplesmente pela mensagem cristã que havia sido assimilada pelos novos conversos, o ensino de amor ao próximo finalmente é expresso na sua totalidade, afinal o desprendimento em favor do necessitado acontece, e qual maior prova de amor ao próximo se não a coragem de dividir e se doar a seu favor. Contudo a liberdade de escolha individual foi preservada como exposta em Atos 5.4. A vida na igreja primitiva valoriza o ser humano. Os bens, a propriedade privada, o desejo de acumulo de bens são trocados por uma vivencia real e concreta de uma comunhão ímpar. O mero ideal teórico de uma sociedade justa é experimentado, pelo menos por algum tempo, de forma real.  Esse não era um novo modelo de sociedade como assevera Boor (2003):
Os terrenos e as casas continuavam sendo propriedade inviolada de cada um. Mas ninguém se arvorava em seu direito de propriedade e defendia seu patrimônio. Aqui não se ensaiava um novo modelo social, nem se definia um novo conceito de propriedade. Aqui a posição interior era completamente nova. Essa atitude repercutia em todos, tanto naqueles que, como Maria, a mãe de João Marcos (At 12.12), conservou sua grande casa, a fim de torná-la útil de outro modo para os irmãos, e também naqueles que, como Barnabé, de fato venderam seu terreno. “Tudo lhes era comum”, ou como também poderíamos traduzir: Consideravam tudo como propriedade comum [2].
                       
            A preocupação era evidente na igreja, o amor ao próximo e o cuidado com os necessitados era uma faceta normal do discipulado cristão. Mas a jovem igreja começa a enfrentar problemas de cunho social, Atos 6.1-7 narra o começo de um favoritismo na distribuição de donativos que ocorria diariamente no seio da igreja. Os helenistas[3] estavam sendo esquecidos e os hebreus favorecidos. A narrativa mostra que os apóstolos convocaram uma reunião com um fim específico, a resolução deveria ser pronta e não poderia continuar com favoritismo e que os necessitados pudessem ser atendidos em suas necessidades igualmente. O mal estar foi resolvido, eles elegeram sete homens que ficaram responsáveis de administrar o fundo dos bens, garantir equidade na distribuição de alimentos para os empobrecidos. Esses homens ficaram conhecidos como diáconos, pessoas que, em virtude do ofício designado a ele pela igreja, cuida dos pobres e tem o dever de distribuir o dinheiro coletado para uso deles.
            Fica patente que mesmo em meio a problemas surgidos na igreja primitiva, os pobres não deveriam ficar em esquecimento. A função diaconal empregada em alguns núcleos religiosos no seio protestante, em nada se assemelha com o papel desempenhado pelos primeiros diáconos. A diaconia serve, biblicamente, como um órgão estruturado e ativo na ajuda aos pobres, dentro da igreja. Cabe ao diácono identificar, apontar, levantar fundos e ajudar os necessitados, fazendo isso estará “servindo a mesa” como foi instruído pelos apóstolos de Cristo. Destacamos o verso 3 do capitulo 6, os discípulos atribuem a essa função um papel importantíssimo o chamam de “...sobre este importante negócio.” (ARC)
            Há um exemplo impressionante do livro Atos 9.36 onde é lembrada uma mulher cristã chamada Tabita, a bíblia expõe que essa mulher “... usava todo o seu tempo fazendo o bem e ajudando os pobres...”, ao que o texto traz, tinha uma grande admiração por parte das viúvas. Já o capitulo 10 fala de um homem piedoso chamado Cornélio, oficial do exercito romano, que continuamente ajudava aos social e se antecipava e se apressava em ajudar, um profeta chamado Ágabo previu uma grande fome, diante disso a igreja de Antioquia, ao invés de pensarem em si, se uniu para enviar socorro aos irmãos que moravam na Judeia. 
            O livro de Atos traz mais um princípio muito interessante, o de “dar é melhor que receber” (ATOS 20.35), o apóstolo Paulo registra nesse trecho que Cristo havia dito e diante disso se fazia necessário socorrer os necessitados. O verbo grego utilizado nesse trecho (didwmi) tem o sentido de suprir, dar lago de livre e espontânea vontade, ser profuso, ter prodigalidade ou simplesmente doar-se. A entrega sem espera de retorno contradiz os ditames das relações humanas. O auxilio aos necessitados é uma exigência divina e deve ser feito com esforço.  
            A igreja primitiva rompe as barreiras do nacionalismo, por mais que seus inauguradores fossem judeus, a igreja estaria aberta a todos. Não poderia haver favoritismo, os pobres não poderiam ser esquecidos, a mensagem cristã deveria ser preservada e as dificuldades existentes eram vencidas pela comunhão vivida por seus membros.
            O pensamento dos apóstolos descrito nas cartas ou epístolas também expressa o cuidado com os necessitados. O apóstolo Paulo, autor da maior parte das paginas neotestamentárias, por exemplo, revela um profundo amor e cuidado pelo próximo. Uma parte da teologia paulina que esta expressada em 1Coríntios 1.26,27,28  fala de como os padrões divino difere dos padrões humanos, a escolha divina começa com os desprezados, humildes, fracos. Para Paulo a pobreza não pode separar o homem do amor de Deus (ROMANOS 8.35 NTLH), o serviço que Deus exige do cristão inclui repartir e compartilhar as necessidades daqueles que estão padecendo (ROMANOS 12.13).
            O próprio apóstolo Paulo levou uma oferta doada por igrejas de algumas cidades, para os cristãos pobres que viviam em Jerusalém (cf. ROMANOS 15.25; 1CORÍNTIOS 16.1; 2CORÍNTIOS 8.1). No capitulo oito de 2coríntios Paulo de detém no ensino onde os cristãos devem prestar assistência aos pobres. Segundo ele deve haver boa vontade em ajudar (2 CORÍNTIOS 8.1-5) e que essa ajuda redunda em “muitas graças a Deus” (vers. 12). A liberalidade cristã é enfatizada nesse capitulo, a doação, que seria coletada, também serviria aos necessitados. Na carta escrita aos Gálatas, Paulo lembra que no inicio de seu ministério entre os gentios, num encontro com os apóstolos Tiago, Cefas e João, ouviu deles uma recomendação importante: “que nos lembrássemos dos pobres, o que também procurei fazer com diligência.” (GÁLATAS 2.10).
            Paulo, em Gálatas 3.28, lembra aos gálatas que em Cristo Jesus não existe discriminação social, pois todos são um. Paulo não nega a pluralidade humana advinda da criação, mas critica as condições sociais discriminatórias que surgiram. Os judeus determinavam suas ações apoiados em raça, gênero e condição social, já a relação estabelecida pelos cristãos pautada pelo amor não cria barreiras culturais ou socioeconômicas.
            De acordo com o trecho de Gálatas 6.10, a ajuda aos desfavorecidos não deve se concentrar somente aos partícipes da comunidade cristã, mas deve ir além do convívio religioso. Isso coaduna com o pensamento expresso por Paulo em Romanos 12.20, onde é dito: “Mas façam como dizem as Escrituras: Se o seu inimigo estiver com fome, dê comida a ele; se estiver com sede, dê água.”
            Na epístola escrita aos efésios (4.28), Paulo exorta aos cristãos viverem de maneira diferente, comparando a vida pré-cristã. O estilo de vida, passado e renovado pela fé, deve ser trocado por trabalho justo para que se tenha com o que ajudar ao necessitado. No seu comentário do texto em questão Eberhard Hahn diz:
Uma vez que a igreja cristã é corpo de Cristo, no qual o dar e o receber recíprocos vigoram por princípio, a “igualação” representa uma função central da vida comunitária: ela inclui participar da alegria ou tristeza (1CO 12.26), mas também compensar a carência de uns com a abundância de outros! Nessa busca de igualdade o olhar dirige-se inicialmente ao irmão, mas, além disso, leva em o necessitado em geral: “Façamos o bem a todos, mas         principalmente aos companheiros na fé” (Gl 6.10; cf. TT 3.14; 1JO 3.17) [4].

            O apóstolo Tiago ensina que o independentemente da condição social vivida pelo cristão, rico ou pobre, todos deve demonstrar gratidão a Deus. Os pobres têm motivos para se gloriarem, a sua dignidade, o rico, por outro lado, gloria-se na sua insignificância, lembrando que tudo é efêmero. Segundo Grünzweig o trecho de Tiago 1.9-10 deve ser interpretado da seguinte forma:
Isso coloca no mesmo nível os membros da igreja socialmente diferentes e os posiciona muito perto uns dos outros. A pobreza não humilha a riqueza não exalta. Quando a questão da riqueza não parece mais tão terrivelmente importante, estão asseguradas também as premissas para a harmonização social[5].
            No pensamento de Tiago o culto cristão a Deus deve ser mais profundo que o simples rito e cerimonia. No texto de 1.27 fica claro que a pura e verdadeira religião consiste em ajudar aos órfãos e viúvas nas suas aflições e não se contaminar com as coisas desse mundo. O cristão não deve se afastar do mundo, porém, tem o dever de se manter puro diante do mundo. Para o apóstolo Tiago isso é realmente possível, quando a mensagem cristã é colocada em pratica (cf. TIAGO 1.22) e essa pratica leva ao cumprimento da verdadeira religião.
            O trecho de 2.1-17, Tiago ensina a não fazer distinção entre pobres e ricos, dando honra aos ricos e desprezo aos pobres devido a sua condição social e sua aparência. E lembra que os pobres foram escolhidos por Deus para serem ricos na fé, esse pensamento lembra a teologia paulina expressa em 1Corintios 1.26-28 e o fato de Cristo anunciar o evangelho aos pobres descrito em Lucas 4.18. Ele lembra que o cristão deve amar os outros como a si mesmo, mais uma vez a lei régia e lembrada. Tiago continua exortando a pratica da fé, usa como exemplo pessoas carentes, que precisam de roupa e alimento, que podem e devem ser alvo da pratica cristã da fé através da ação. A fé cristã pode ser indiferente à condição do semelhante, antes expressa o amor divino em todas as dimensões.
             Para Tiago a riqueza de muitos está associada à opressão e exploração de trabalhadores (cf. 5.3-4) e muitos inocentes foram condenados ou mortos pelo desejo desenfreado e ganância de alguns. Devido a isso, este serão condenados por Deus.
            O apóstolo do amor, João, em sua primeira carta transparece que a vida real e essencial consiste no amor. Ele afirma que “Deus é amor” (1JOÃO 4.8) , que os cristãos são aperfeiçoados no amor (1JOÃO 2.5), que a prova de amor de Deus para o cristão é o fato deste ser chamado de filho de Deus (1JOÃO 3.1) e que Cristo deu sua vida pelo gênero humano (1JOÃO 3.16; 4.9,10). Ele continua ensinando que devemos amar uns aos outros (1JOÃO 4.7), que aqueles que não amam não podem conhecer a Deus (1JOÃO 4.8). A palavra amor e suas variações permeiam toda sua carta, aparece cerca de vinte seis vezes. No pensamento joanino a falta de amor implica no triste fato do ser humano estar morto (1JOÃO 3.15), e a prática de toda lei se resume no amor.
            João denota o amor que vincula a comunhão entre o ser humano e Deus e a relação entre o ser humano e seus semelhantes. Ele indaga sobre a pratica desse amor, e desafia para que o cristão expresse não somente de “palavras, mas de fato e verdade” (1JOÃO 3.18).
            Ele indaga ainda: “Se alguém é rico e vê o seu irmão passando necessidade, mas fecha o seu coração para essa pessoa, como pode afirmar que, de fato, ama a Deus?” (1JOÃO 3.17). O fato de alguém padecer necessidade e ser suprido por aquele que vive abastado parece óbvio nessa declaração. A necessidade material do próximo deve ser suprida pela disposição auxiliadora advinda do amor de Deus nos corações daqueles que são discípulos de Cristo.
             Terminando o novo testamento, precisamente no Apocalipse, encontramos diversas promessas que mostram o desejo divino para o ser humano. É prometido um novo reino sem dissonâncias sociais, a fome,  a sede, o sofrimento deixam de existir (APOCALIPSE 7.16-17), uma nova terra e um novo céu é criado, o projeto inicial do Genesis é alcançado, as promessas preditas pelos profetas veterotestamentários se cumprem. Cristo é o rei e nesse reino não haverá mais maldição, a morte, o luto, o pranto.
            A pobreza não é desprezada no novo testamento e aqueles que são denominados cristãos não podem ignora-la, e nem agir passivamente diante dessa realidade cruel. A pobreza não é somente um problema a ser tratado pelos governantes, isso fica claro pela nossa pesquisa nas paginas neotestamentárias.











[1] Igreja Primitiva – Alusão a formação histórica da igreja cristã, ocorrida no período de 30 d.C até a permissão da religião cristã pelo imperador romano Constantino e oficialização pelo imperador Teodósio. 
[2]  Boor, Werner de, Atos dos Apóstolos, Curitiba, Editora Evangélica Esperança, 2003, pg.49. 
[3] Os helenistas eram judeus advindos de países ocidentais, os quais haviam adquirido um pouco da cultura grega e falavam grego.
[4] Hahn, Eberhard, Cartas aos Efésios, Filipenses e Colossenses : Comentário Esperança. Curitiba, PR: Editora Evangélica Esperança, 2006, pg. 59.
[5] Grünzweig, Fritz , Cartas de Tiago, Pedro, João e Judas. Curitiba, PR : Editora Evangélica Esperança, 2008, pg.76.