Mostrando postagens com marcador estudos para jovens. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador estudos para jovens. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

A POBREZA E A BÍBLIA - NOVO TESTAMENTO

O Espírito do Senhor está sobre mim, pelo que me ungiu para evangelizar os pobres; enviou-me para proclamar libertação aos cativos e restauração da vista aos cegos, para pôr em liberdade os oprimidos, e apregoar o ano aceitável do Senhor.
Jesus Cristo
     
  O novo testamento não difere do antigo testamento em vários aspectos. Algumas leis e vários costumes foram, no novo testamento, abolidos, mas a responsabilidade social ante a pobreza e os efeitos colaterais causados por ela são lembrados a todo instante. Quando permeamos os evangelhos, o livro histórico neotestamentário, as cartas paulinas, as cartas universais e o livro da revelação (APOCALIPSE) fica evidente o que afirmamos acima.
             Olhando para a língua em que foi escrito o novo testamento (grego) encontramos os seguintes termos para pobre e pobreza: penichros (penicrov) significando pobre e necessitado, ptochos (ptwcov) que traz o sentido de aquele que foi reduzido à pobreza, mendicância, pedinte, desamparado, indigente, destituído de cultura intelectual que as escolas propiciam, penes (penhv) somente pobre e husterematos (husterematov) que significa pobreza, falta ou deficiência daquilo que se precisa, necessidade. Todos esses termos são aplicados de maneira objetiva no novo testamento, mostrando que a pobreza jamais é esquecida por Deus.
            A pregação do evangelho não veio somente para os socialmente privilegiados, o evangelho não era uma ferramenta de libertação politica da escravidão vivida pelos judeus como consequência da opressão romana que dominava o mundo de então, mas, Jesus, no evangelho de Lucas 7.18-22, mostrara que sua missão, e uma das provas que ele de fato era o Messias prometido, se devia ao fato de que o evangelho estava sendo pregado aos pobres. Os socialmente desfavorecidos não são esquecidos nas paginas do novo testamento, por isso a igreja ou aqueles que se chamam cristãos não podem esquecê-los, e é justamente este o proposito de nossa fundamentação teórica desse item formado a partir do novo testamento.
              O novo testamento trata da pessoa central e mais importante para o cristianismo, Jesus Cristo. Os seus ensinos e os efeitos desses ensinos que foram registrados servem de modelo para a igreja cristã do século XXI. O próprio Jesus em suas palavras registradas no evangelho de João (20.21) se coloca como modelo a ser seguido, os apóstolos imita a Cristo e incentivam os cristãos a fazê-lo também: “Sede meus imitadores, como também eu sou de Cristo.” (1CORINTIOS 11.1). A incontestável verdade é que sem a pessoa de Cristo e de seus ensinos não há cristianismo.
            Jesus era pobre. Os evangelhos registram o nascimento de Jesus em uma família socialmente pobre. Maria e José não têm títulos e nem influência. A afirmativa de que eles eram pobres esta registrada em Lucas 2.23-24 (você pode comparar com Levítico 12.8), onde durante a consagração de Jesus eles levam um casal de pombos, mostrando a falta de condições de oferecer um sacrifício de um animal maior, um cordeiro por exemplo. Jesus nasceu numa manjedoura, não num palácio, como acreditavam alguns em sua época.
             A cidade natal de Jesus, Belém, talvez nunca tivesse a notoriedade que tem hoje se ele não tivesse nascido lá. A infância e adolescência de Cristo foram vividas em outra cidade subdesenvolvida, a cidade de Nazaré, mais tarde um homem chamado Natanael duvida de Jesus quando toma conhecimento de sua cidade: “De Nazaré pode sair alguma coisa boa?” (JOÃO 1.46). A entrada de Jesus em jumentinho narrada no evangelho de Mateus 21.1-16, mostra o estilo que ele trazia consigo. Carlos Queiroz (1998) diz que Cristo era um tipo de rei que afrontava os modelos estratificados da sociedade. A profissão de seu pai, carpinteiro, revela outra parte da realidade social vivida por Jesus. Durante seu ministério dependeu de um grupo de mulheres que o sustentava e não possuía um lar (Lucas 8.2 e 9.58).
            Os judeus de seu tempo atribuía a pobreza uma espécie de maldição divina e a riqueza como evidência da benção do divino. O estilo de vida de Cristo contradiz esse paradigma judeu, afinal Cristo vive sem pecados e mesmo assim assume uma condição de pobreza.  Porém, a pobreza não deve ser encarada, biblicamente, como uma virtude, mas, como um mal a ser eliminado e com o qual Deus mostra profunda preocupação.   
            A missão de Cristo é afirmada por ele quando, citando Isaías 61.1-2, diz:
O Espírito do Senhor está sobre mim, pelo que me ungiu para evangelizar os pobres; enviou-me para proclamar libertação aos cativos e restauração da vista aos cegos, para pôr em liberdade os oprimidos, e apregoar o ano aceitável do Senhor.
            Note que o texto diz claramente que uma das prerrogativas ministeriais de Cristo era a anunciação do evangelho aos pobres. Isso também foi confirmado quando Cristo afirma a João Batista que em Lucas 7.22 que “aos pobres é anunciado o evangelho”. Os discípulos escolhidos por Jesus eram   pobres. O estilo de vida de Jesus e a escolha de seus discípulos coadunam com o ensino registrado em Tiago 2.5: “Ouvi, meus amados irmãos. Não escolheu Deus os que para o mundo são pobres, para serem ricos em fé e herdeiros do reino que ele prometeu aos que o amam?”. 
             Ele conviveu com pecadores e publicanos, acolheu pobres, libertou prostitutas, curou aqueles que viviam as margens da sociedade, ensinou a estrangeiros discriminados pelo seu povo, como o caso da mulher samaritana (JOÃO 4.1-30). Até em sua morte podemos ver seu estilo de vida, ele não tinha um tumulo para ser sepultado, e só o teve pela generosidade de um homem rico chamado José de Arimatéia. Isso nos remete ao que o apóstolo Paulo escreveu em 2 CORÍNTIOS 8.9 : “pois conheceis a graça de nosso Senhor Jesus Cristo, que, sendo rico, se fez pobre por amor de vós, para que, pela sua pobreza, vos tornásseis ricos.”
            Houve dois homens ricos que foram ao encontro de Jesus, o primeiro um jovem riquíssimo que ouviu que deveria vender tudo o que tinha e dar aos pobres e depois seguir a Cristo (LUCAS 18.22,23), mas não conseguiu faze-lo. No celebre sermão do monte Jesus fala que não se pode servir a Deus e as riquezas (MATEUS 6.24), as riquezas para o cristão, e de acordo com ensino de Cristo, deve estar a favor dos homens e nunca contra os homens, ela deve ajudar e não separar, o desprendimento em relação à riqueza e aos bens materiais é necessário para que haja justiça, e essa justiça deve ser praticada por aqueles que querem seguir a Cristo.
            Em outros textos, Jesus da à mesma ênfase que foi dada ao jovem rico, Lucas 12.33 e 14.33 indicam que a riqueza não pode ser um empecilho, um óbice, para aqueles que querem se tornar discípulos de Cristo. Outro pensamento extraído destes textos é que as riquezas não devem servir de bens para desfrute de pequenas massas egoístas, mas devem servir de bem comum à humanidade, suprindo a necessidade de todos igualmente.
            A visão de posses de acordo com o pensamento de Cristo difere dos padrões vividos por muitos cristãos de hoje.  O segundo homem foi Zaqueu, que trabalhava na cobrança de impostos, após encontrar-se com Jesus decide doar metade de seus bens aos pobres. A atitude de Zaqueu leva a declaração de Cristo “hoje veio salvação a esta casa”, ao que o texto denota o sinal de conversão foi o desprendimento em doar, em ajudar.
          No evangelho de Mateus 25. 35-45 Jesus afirma que um dos critérios usados por Deus no julgamento, se dará com base nas atitudes do homem em relação ao socialmente desfavorecidos. A atitude correta, de acordo com esse trecho, é saciar a sede dos sedentos, saciar a fome dos famintos, vestir os que estão nus, dar abrigo aos estrangeiros, prestar auxilio aos enfermos e encarcerados. Em suma Jesus Cristo se fez pobre, pregou aos pobres, se dou aos pobres e ensinou a atitude correta que devemos ter diante dos pobres.
          Os pobres foram alvo das mensagens de Cristo veja o que evangelista Lucas registrou: “então, olhando ele para os seus discípulos, disse-lhes: Bem-aventurados vós, os pobres, porque vosso é o reino de Deus” (LUCAS 6.20). Não podemos negar o cuidado de Cristo para com o pobre, mas e a igreja? Será que em seus primórdios houve a mesma compaixão, a mesma visão? Os continuadores da propagação do evangelho levaram a mesma mensagem de amor ao próximo e cuidado aos desfavorecidos? Indubitavelmente, podemos afirmar que a igreja primitiva[1] e os discípulos de Cristo continuaram o legado de amor, respeito e ajuda aos pobres.
            Continuamos nossa pesquisa através dos livros neotestamentários. O livro histórico do novo testamento, Atos dos apóstolos ou simplesmente Atos, trata da formação da igreja e da continuidade da pregação da mensagem de Cristo pelos seus discípulos. Em meio a perseguições e acontecimentos surpreendentes a igreja cristã começa a ser formada. O inicio da igreja é marcado por um profundo zelo pela pureza da mensagem cristã, pela tarefa árdua de anunciação dessa mensagem e pela prática incansável e indelével da igreja para aplicar a mensagem de Cristo integralmente.   
            Os textos de Atos 2.42-45 e 4.32-35 mostra o modo de como os primeiros cristãos viviam. A visão do bem comum, onde todos os bens pertenciam a todos, era aplicada, os primeiros cristãos não visavam individualmente suas propriedades, mas os bens pertenciam a generalidade, é o que o adjetivo grego para comum koinos (koinov), que aparece no verso 44, exprime. O trecho de 4.32-35 revela um tipo de sentimento que havia entre os neófitos e os cristãos de fé arraigada, havia unanimidade, os bens deveriam servir a todos, eles dividiam uns com os outros tudo que eles tinham, e o resultado desse tipo de sociedade é expresso no verso 34 e 35, onde fica visível a eliminação da pobreza:
“Não havia entre eles nenhum necessitado, pois todos os que tinham terras ou casas as vendiam, traziam o dinheiro e o entregavam aos apóstolos. E cada pessoa recebia uma parte, de acordo com a sua necessidade.” (NTLH).
            Ressaltamos que essa comunidade cristã não agia dessa forma por obrigação ou exigências impostos pelos apóstolos, como aconteceu com os essênios que repartiam seus bens por uma imposição legalista, mas simplesmente pela mensagem cristã que havia sido assimilada pelos novos conversos, o ensino de amor ao próximo finalmente é expresso na sua totalidade, afinal o desprendimento em favor do necessitado acontece, e qual maior prova de amor ao próximo se não a coragem de dividir e se doar a seu favor. Contudo a liberdade de escolha individual foi preservada como exposta em Atos 5.4. A vida na igreja primitiva valoriza o ser humano. Os bens, a propriedade privada, o desejo de acumulo de bens são trocados por uma vivencia real e concreta de uma comunhão ímpar. O mero ideal teórico de uma sociedade justa é experimentado, pelo menos por algum tempo, de forma real.  Esse não era um novo modelo de sociedade como assevera Boor (2003):
Os terrenos e as casas continuavam sendo propriedade inviolada de cada um. Mas ninguém se arvorava em seu direito de propriedade e defendia seu patrimônio. Aqui não se ensaiava um novo modelo social, nem se definia um novo conceito de propriedade. Aqui a posição interior era completamente nova. Essa atitude repercutia em todos, tanto naqueles que, como Maria, a mãe de João Marcos (At 12.12), conservou sua grande casa, a fim de torná-la útil de outro modo para os irmãos, e também naqueles que, como Barnabé, de fato venderam seu terreno. “Tudo lhes era comum”, ou como também poderíamos traduzir: Consideravam tudo como propriedade comum [2].
                       
            A preocupação era evidente na igreja, o amor ao próximo e o cuidado com os necessitados era uma faceta normal do discipulado cristão. Mas a jovem igreja começa a enfrentar problemas de cunho social, Atos 6.1-7 narra o começo de um favoritismo na distribuição de donativos que ocorria diariamente no seio da igreja. Os helenistas[3] estavam sendo esquecidos e os hebreus favorecidos. A narrativa mostra que os apóstolos convocaram uma reunião com um fim específico, a resolução deveria ser pronta e não poderia continuar com favoritismo e que os necessitados pudessem ser atendidos em suas necessidades igualmente. O mal estar foi resolvido, eles elegeram sete homens que ficaram responsáveis de administrar o fundo dos bens, garantir equidade na distribuição de alimentos para os empobrecidos. Esses homens ficaram conhecidos como diáconos, pessoas que, em virtude do ofício designado a ele pela igreja, cuida dos pobres e tem o dever de distribuir o dinheiro coletado para uso deles.
            Fica patente que mesmo em meio a problemas surgidos na igreja primitiva, os pobres não deveriam ficar em esquecimento. A função diaconal empregada em alguns núcleos religiosos no seio protestante, em nada se assemelha com o papel desempenhado pelos primeiros diáconos. A diaconia serve, biblicamente, como um órgão estruturado e ativo na ajuda aos pobres, dentro da igreja. Cabe ao diácono identificar, apontar, levantar fundos e ajudar os necessitados, fazendo isso estará “servindo a mesa” como foi instruído pelos apóstolos de Cristo. Destacamos o verso 3 do capitulo 6, os discípulos atribuem a essa função um papel importantíssimo o chamam de “...sobre este importante negócio.” (ARC)
            Há um exemplo impressionante do livro Atos 9.36 onde é lembrada uma mulher cristã chamada Tabita, a bíblia expõe que essa mulher “... usava todo o seu tempo fazendo o bem e ajudando os pobres...”, ao que o texto traz, tinha uma grande admiração por parte das viúvas. Já o capitulo 10 fala de um homem piedoso chamado Cornélio, oficial do exercito romano, que continuamente ajudava aos social e se antecipava e se apressava em ajudar, um profeta chamado Ágabo previu uma grande fome, diante disso a igreja de Antioquia, ao invés de pensarem em si, se uniu para enviar socorro aos irmãos que moravam na Judeia. 
            O livro de Atos traz mais um princípio muito interessante, o de “dar é melhor que receber” (ATOS 20.35), o apóstolo Paulo registra nesse trecho que Cristo havia dito e diante disso se fazia necessário socorrer os necessitados. O verbo grego utilizado nesse trecho (didwmi) tem o sentido de suprir, dar lago de livre e espontânea vontade, ser profuso, ter prodigalidade ou simplesmente doar-se. A entrega sem espera de retorno contradiz os ditames das relações humanas. O auxilio aos necessitados é uma exigência divina e deve ser feito com esforço.  
            A igreja primitiva rompe as barreiras do nacionalismo, por mais que seus inauguradores fossem judeus, a igreja estaria aberta a todos. Não poderia haver favoritismo, os pobres não poderiam ser esquecidos, a mensagem cristã deveria ser preservada e as dificuldades existentes eram vencidas pela comunhão vivida por seus membros.
            O pensamento dos apóstolos descrito nas cartas ou epístolas também expressa o cuidado com os necessitados. O apóstolo Paulo, autor da maior parte das paginas neotestamentárias, por exemplo, revela um profundo amor e cuidado pelo próximo. Uma parte da teologia paulina que esta expressada em 1Coríntios 1.26,27,28  fala de como os padrões divino difere dos padrões humanos, a escolha divina começa com os desprezados, humildes, fracos. Para Paulo a pobreza não pode separar o homem do amor de Deus (ROMANOS 8.35 NTLH), o serviço que Deus exige do cristão inclui repartir e compartilhar as necessidades daqueles que estão padecendo (ROMANOS 12.13).
            O próprio apóstolo Paulo levou uma oferta doada por igrejas de algumas cidades, para os cristãos pobres que viviam em Jerusalém (cf. ROMANOS 15.25; 1CORÍNTIOS 16.1; 2CORÍNTIOS 8.1). No capitulo oito de 2coríntios Paulo de detém no ensino onde os cristãos devem prestar assistência aos pobres. Segundo ele deve haver boa vontade em ajudar (2 CORÍNTIOS 8.1-5) e que essa ajuda redunda em “muitas graças a Deus” (vers. 12). A liberalidade cristã é enfatizada nesse capitulo, a doação, que seria coletada, também serviria aos necessitados. Na carta escrita aos Gálatas, Paulo lembra que no inicio de seu ministério entre os gentios, num encontro com os apóstolos Tiago, Cefas e João, ouviu deles uma recomendação importante: “que nos lembrássemos dos pobres, o que também procurei fazer com diligência.” (GÁLATAS 2.10).
            Paulo, em Gálatas 3.28, lembra aos gálatas que em Cristo Jesus não existe discriminação social, pois todos são um. Paulo não nega a pluralidade humana advinda da criação, mas critica as condições sociais discriminatórias que surgiram. Os judeus determinavam suas ações apoiados em raça, gênero e condição social, já a relação estabelecida pelos cristãos pautada pelo amor não cria barreiras culturais ou socioeconômicas.
            De acordo com o trecho de Gálatas 6.10, a ajuda aos desfavorecidos não deve se concentrar somente aos partícipes da comunidade cristã, mas deve ir além do convívio religioso. Isso coaduna com o pensamento expresso por Paulo em Romanos 12.20, onde é dito: “Mas façam como dizem as Escrituras: Se o seu inimigo estiver com fome, dê comida a ele; se estiver com sede, dê água.”
            Na epístola escrita aos efésios (4.28), Paulo exorta aos cristãos viverem de maneira diferente, comparando a vida pré-cristã. O estilo de vida, passado e renovado pela fé, deve ser trocado por trabalho justo para que se tenha com o que ajudar ao necessitado. No seu comentário do texto em questão Eberhard Hahn diz:
Uma vez que a igreja cristã é corpo de Cristo, no qual o dar e o receber recíprocos vigoram por princípio, a “igualação” representa uma função central da vida comunitária: ela inclui participar da alegria ou tristeza (1CO 12.26), mas também compensar a carência de uns com a abundância de outros! Nessa busca de igualdade o olhar dirige-se inicialmente ao irmão, mas, além disso, leva em o necessitado em geral: “Façamos o bem a todos, mas         principalmente aos companheiros na fé” (Gl 6.10; cf. TT 3.14; 1JO 3.17) [4].

            O apóstolo Tiago ensina que o independentemente da condição social vivida pelo cristão, rico ou pobre, todos deve demonstrar gratidão a Deus. Os pobres têm motivos para se gloriarem, a sua dignidade, o rico, por outro lado, gloria-se na sua insignificância, lembrando que tudo é efêmero. Segundo Grünzweig o trecho de Tiago 1.9-10 deve ser interpretado da seguinte forma:
Isso coloca no mesmo nível os membros da igreja socialmente diferentes e os posiciona muito perto uns dos outros. A pobreza não humilha a riqueza não exalta. Quando a questão da riqueza não parece mais tão terrivelmente importante, estão asseguradas também as premissas para a harmonização social[5].
            No pensamento de Tiago o culto cristão a Deus deve ser mais profundo que o simples rito e cerimonia. No texto de 1.27 fica claro que a pura e verdadeira religião consiste em ajudar aos órfãos e viúvas nas suas aflições e não se contaminar com as coisas desse mundo. O cristão não deve se afastar do mundo, porém, tem o dever de se manter puro diante do mundo. Para o apóstolo Tiago isso é realmente possível, quando a mensagem cristã é colocada em pratica (cf. TIAGO 1.22) e essa pratica leva ao cumprimento da verdadeira religião.
            O trecho de 2.1-17, Tiago ensina a não fazer distinção entre pobres e ricos, dando honra aos ricos e desprezo aos pobres devido a sua condição social e sua aparência. E lembra que os pobres foram escolhidos por Deus para serem ricos na fé, esse pensamento lembra a teologia paulina expressa em 1Corintios 1.26-28 e o fato de Cristo anunciar o evangelho aos pobres descrito em Lucas 4.18. Ele lembra que o cristão deve amar os outros como a si mesmo, mais uma vez a lei régia e lembrada. Tiago continua exortando a pratica da fé, usa como exemplo pessoas carentes, que precisam de roupa e alimento, que podem e devem ser alvo da pratica cristã da fé através da ação. A fé cristã pode ser indiferente à condição do semelhante, antes expressa o amor divino em todas as dimensões.
             Para Tiago a riqueza de muitos está associada à opressão e exploração de trabalhadores (cf. 5.3-4) e muitos inocentes foram condenados ou mortos pelo desejo desenfreado e ganância de alguns. Devido a isso, este serão condenados por Deus.
            O apóstolo do amor, João, em sua primeira carta transparece que a vida real e essencial consiste no amor. Ele afirma que “Deus é amor” (1JOÃO 4.8) , que os cristãos são aperfeiçoados no amor (1JOÃO 2.5), que a prova de amor de Deus para o cristão é o fato deste ser chamado de filho de Deus (1JOÃO 3.1) e que Cristo deu sua vida pelo gênero humano (1JOÃO 3.16; 4.9,10). Ele continua ensinando que devemos amar uns aos outros (1JOÃO 4.7), que aqueles que não amam não podem conhecer a Deus (1JOÃO 4.8). A palavra amor e suas variações permeiam toda sua carta, aparece cerca de vinte seis vezes. No pensamento joanino a falta de amor implica no triste fato do ser humano estar morto (1JOÃO 3.15), e a prática de toda lei se resume no amor.
            João denota o amor que vincula a comunhão entre o ser humano e Deus e a relação entre o ser humano e seus semelhantes. Ele indaga sobre a pratica desse amor, e desafia para que o cristão expresse não somente de “palavras, mas de fato e verdade” (1JOÃO 3.18).
            Ele indaga ainda: “Se alguém é rico e vê o seu irmão passando necessidade, mas fecha o seu coração para essa pessoa, como pode afirmar que, de fato, ama a Deus?” (1JOÃO 3.17). O fato de alguém padecer necessidade e ser suprido por aquele que vive abastado parece óbvio nessa declaração. A necessidade material do próximo deve ser suprida pela disposição auxiliadora advinda do amor de Deus nos corações daqueles que são discípulos de Cristo.
             Terminando o novo testamento, precisamente no Apocalipse, encontramos diversas promessas que mostram o desejo divino para o ser humano. É prometido um novo reino sem dissonâncias sociais, a fome,  a sede, o sofrimento deixam de existir (APOCALIPSE 7.16-17), uma nova terra e um novo céu é criado, o projeto inicial do Genesis é alcançado, as promessas preditas pelos profetas veterotestamentários se cumprem. Cristo é o rei e nesse reino não haverá mais maldição, a morte, o luto, o pranto.
            A pobreza não é desprezada no novo testamento e aqueles que são denominados cristãos não podem ignora-la, e nem agir passivamente diante dessa realidade cruel. A pobreza não é somente um problema a ser tratado pelos governantes, isso fica claro pela nossa pesquisa nas paginas neotestamentárias.











[1] Igreja Primitiva – Alusão a formação histórica da igreja cristã, ocorrida no período de 30 d.C até a permissão da religião cristã pelo imperador romano Constantino e oficialização pelo imperador Teodósio. 
[2]  Boor, Werner de, Atos dos Apóstolos, Curitiba, Editora Evangélica Esperança, 2003, pg.49. 
[3] Os helenistas eram judeus advindos de países ocidentais, os quais haviam adquirido um pouco da cultura grega e falavam grego.
[4] Hahn, Eberhard, Cartas aos Efésios, Filipenses e Colossenses : Comentário Esperança. Curitiba, PR: Editora Evangélica Esperança, 2006, pg. 59.
[5] Grünzweig, Fritz , Cartas de Tiago, Pedro, João e Judas. Curitiba, PR : Editora Evangélica Esperança, 2008, pg.76.

terça-feira, 10 de novembro de 2015

VOCACIONADO! EU?



   "Rogo-vos, pois, eu, o prisioneiro no Senhor, que andeis como é digno da vocação com que fostes
 chamados" Efésios 4.1





  Em minhas viagens internas onde tento me encontrar, busco entender o sentido de minha existência.  Acredito que não sou o único. Afinal o que estamos fazendo aqui e agora, ou, o que seremos e faremos no espaço de tempo que chamamos de futuro?
Admiro aqueles jovens decididos, que quando questionados sobre seu futuro não titubeiam e de pronto, com brilhos nos olhos, respondem: “Serei isso, ou farei isso!”. Mas cá pra nós poucos possuem essa audácia e essa certeza. Acredito que a maioria, e há alguns anos me incluía nela, não consegue delinear seu ímpeto vocativo de maneira tão clara e definida. A verdade é que o futuro não nos é confortável e, misturado a isso, ainda temos a falta de propósitos.
  Perdidos com a incerteza do futuro e uma vida desprovida de proposito muitos jovens se perdem na estrutura capitalista, servindo de massa de produção e com isso deixam de lado a subjetividade para alcançar o que as empresas, onde estão locados, exigem. Esses são descaracterizados e sem rostos, tornam-se apenas mais um na busca pelo “sonho americano”. Outros se perdem no consumismo, na busca pelo prazer a qualquer custo, nas distorções de imagem, comportamento. Há ainda aqueles poucos, que se entregam a militâncias ou se agregam alguma cultura vivendo um estilo de vida alternativo.
  Independentemente da escolha que se faz, trará consigo o reflexo e consequências profundas na vida e no modo como se enxerga a vida. É muito importante para todos descobrirem suas vocações, mas para o jovem de hoje isso é crucial.
  É na vocação que se encontra sentido na vida. A vocação válida a vida. Vocação, ou chamado (aqui tratados como sinônimos), não se reduz a profissão, mas diz respeito também ao chamado de Deus para cada um de nós e para o seu povo. Vocação é aquilo que somos chamados a ser e a realizar, como pessoas, tanto coletiva como individualmente[1].
 



Em se tratando de vocação, é necessário falar de dois aspectos, o mandato cultural e mandato missional.  No mandato cultural lembramos de Adão e Eva em suas atribuições em reger o Éden. Gillis resume o mandato cultural da seguinte forma:
A identidade de gênero, a sexualidade, o casamento, a família, a sociedade,                      as nações, o cuidado com meio ambiente, o trabalho, a economia, a governança política, a cultura e a espiritualidade estão contidos na benção-vocação comunicadas por Deus à humanidade como um todo (Mandato Cultural) e que permanece essencialmente inalterada desde as origens. Responder à convocação divina e cumprir a agenda proposta pelo Criador como pessoas, por meio do corpo, na história, nas interações uns com os outros e com a Terra é encontrar o sentido básico para a existência humana, pessoal e coletiva.[2]

Max Weber em sua famosa obra “A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo”, mostra um elemento teológico que transformou radicalmente a noção do trabalho, esse foi o conceito de “vocação”. Até a Reforma vocação era limitada àqueles que se dedicavam à vida monástica. O movimento da Reforma trouxe o entendimento que vocação incluía todas as ocupações honestas, criando assim um novo sentido às atividades tidas como seculares.
Lutero considerou o labor diário em um emprego secular como vocação divina, assim trazendo o impulso religioso para dentro da sociedade. Calvino foi mais longe ainda, ao afirmar que o cristão deve servir a Deus não apenas “dentro” da sua vocação, num espírito um tanto passivo, mas “por meio” da sua vocação, num espírito mais ativo e empreendedor. Em suma, a vocação envolveria uma adequação entre indivíduos e seus trabalhos, conectando-nos com o propósito mais elevado que podemos ter -- o serviço de Deus[3].
É bom salientar que o protestantismo ajudou no desenvolvimento positivo do capitalismo, mas as mazelas criadas por este sistema são consequências do pecado e da não aplicação integral do evangelho.
Encontrar o sentido em todos os âmbitos relacionais do homem é a maneira que entendemos o mandato cultural. Há termo teológico que encontramos em Weber é o conceito da glória de Deus na sociedade, transformar os aspectos da vida social como um todo de modo que tudo que se faz torna-se meio de honrar a Deus. Sua profissão, sua família, suas relações, seu modo de amar e fazer arte, antes visto como algo secular e tolerado por Deus, reveste-se de um novo sentido, com o entendimento que pela graça e misericórdia do Criador tudo que fazemos pode glorificar à Deus. O sofrimento acontece quando escolhemos uma vida baseada nas pressões de mercado, ou na ganancia desenfreada, ou, ainda, no desejo de acumulo de bens. Jesus foi certeiro ao falar: “Que adianta ganhar o mundo inteiro e perder sua alma?”.
O mandato missional não altera a vocação cultural que o ser humano possui, porém dá uma nova dimensão a vocação. Essa nova dimensão é o resgate e a reorganização da criação corrompida. Nesse âmbito todos, nascidos de novo, são responsáveis por uma faceta desse aspecto.
Todos os redimidos foram chamados por Deus e para Deus (Isaías 43.7). Somos chamados não por homens ou instituições, mas por Deus e o nosso serviço também estará direcionado à Ele. Dessa forma toda a igreja é chamada, convocado a salvação, santidade, comunhão e missão. A nossa existência não é despropositada, sem nexo, sem compromisso, sem valor. 
Você nasceu em Cristo com o propósito de servi-lo sendo sal e luz onde estiver. Assim, a evangelização, plantio de igrejas, encorajamento dos crentes, serviço social e ensino da Palavranão são responsabilidade de um grupo seleto de pastores e missionários, mas de toda a Igreja. Se você é discípulo de Cristo, já está convocado a servi-lo com tudo o que você é e tudo o que você tem. Suas forças, competência, oportunidades, emprego, inteligência, relacionamentos, finanças e família.[4]
A vocação perpassa toda nossa caminhada. E é nessa caminhada que servimos a Deus. Nossos relacionamentos são únicos. Nossos amigos, nossos familiares, por onde andamos, isso somente nós poderemos fazer, e somente nós, tendo em vista nossa vocação, iremos manifestar Deus e Seu reino nessa trilha.
Mas há ainda um chamado especifico, uma vocação especifica. São os dons que Cristo distribuiu a igreja (Efésios 4.12). Através desses dons, presentes, que Sua igreja é edificada. Dons específicos e que desenvolvem funções especificas. Aqueles que recebem essa vocação, não recebem para se tornarem superiores aos demais, mas justamente o contrario, servir.
O chamado será para exercício, para ser realizado, ele é funcional e não se limitará a um lugar especifico. Afinal a vocação é dada a pessoas, e isso será exercido independentemente onde elas estiverem inseridas. Isso vai contra a ideia de “para onde Deus me chamou”. Na realidade Ele nos chamou para exercer nossos dons onde estivermos. Vocação é o que fazemos e não         onde iremos.  O artesão não será artesão por estar em local especifico. Ele é artesão. Os pastores serão pastores independentemente onde estejam, são pastores. Os mestres ensinarão a palavra onde quer que estejam, são mestres.
Quando você for chamado por Deus para um ministério não fique aflito qual local irá exercê-lo, pode ser na praça do outro da sua casa, o Deus que te chamou te guiará para que Sua vontade seja plenamente cumprida.
Lembra-se somente disso, todos somos chamados e vocacionados para fazer algo no reino de Deus. Deus não nos chama para inutilidade ou uma vida sem propósitos. Conheça mais a Ele, dedique sua vida ao reino, coloque seus talentos a serviço do Rei, Ele te usará.









[4] LINDÓRIO, Ronaldo; Vocacionados. Editora Betânia, 2014, p9. 

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

TRATAMENTO AO ESTRANGEIRO SEGUNDO O ANTIGO TESTAMENTO



“... era estrangeiro, e hospedastes-me...” (JESUS CRISTO)




 As imigrações legais e, principalmente, ilegais tem se tornado o centro das atenções dos países da Europa e de outros países desenvolvidos
 Há quem diga que o mundo vive a maior crise humanitária, o número de deslocados e refugiados já ultrapassam a quantidade de pessoas nessas situações por ocasião da segunda guerra mundial. A estimativa é que hoje existem 60 milhões de pessoas deslocadas violentamente de suas casas por conta de conflitos políticos, étnicos e religiosos. Dessas 60 milhões cerca de 20 milhões tiveram que deixar seu país. Em 2014 a média de pessoas que tiveram que abonar suas casas e viver como estrangeiros foi de quase 42.500 pessoas por dia!
 O estudo que se segue faz parte de uma serie de estudos realizados para discutir a bíblia e a questão da pobreza.  Os estrangeiros que vagueiam sem terra, e por consequência, sem renda, acabam como marginais na  sociedade e sobrevivem em condições de total exclusão.  
  Que a igreja não feche os olhos para essa realidade.

ESTRANGEIROS, QUAL TRATAMENTO SEGUNDO ANTIGO TESTAMENTO.

 Os estrangeiros (gentio, não israelita) não deveriam ser maltratados, nem explorados. Jeová devota-lhes amor e os hebreus, também, deviam amá-los e cuidar desses estrangeiros. (cf. Deuteronômio 10.18,19). O argumento divino para que os hebreus agissem assim era simples: “Amai, pois, o estrangeiro, porque fostes estrangeiros na terra do Egito.” (DEUTERONÔMIO 10.19).
 Na lei judaica, presente em Deuteronômio 27.19, se algum judeu oprimisse algum adventício era amaldiçoado pela própria lei divina. A sobrevivência digna para o estrangeiro era assegurada por lei, se não conseguisse sustentar-se não poderia estar reduzido a uma condição de marginalidade social (cf. Levítico 25.35), as colheitas “nos campos, nas vindimas e olivais não poderiam ser de todo colhido após o varejamento, deviam sobrar alguns frutos daquela colheita afim de que os estrangeiros pudessem respigar alguma coisa deixada[1]”, o fato de os lavradores deixarem algumas respiga dava ao estrangeiro a oportunidade de juntar alimentos de uma forma digna e não mendigar.
 A pesquisa textual focada no Pentateuco leva-nos entender outro fator importante: a lei torna iguais, perante ela, estrangeiros e nativos. “Como o natural, será entre vós o estrangeiro que peregrina convosco; amá-lo-eis como a vós mesmos, pois estrangeiros fostes na terra do Egito. Eu sou o SENHOR, vosso Deus” [2]. (cf. Êxodo 14.29; Levítico 24.22; Números 9.15; Números 15.16). A discriminação racial não poderia ocorrer, haja vista a ordenança de Deus em tratar o estrangeiro com respeito e amor. O hebreu foi advertido por Deus para não perverter os direitos dos não hebreus. (cf. Deuteronômio 27.19).
 Outro tratamento interessante é que ao realizar algum empréstimo para o estrangeiro não era permitido a pratica de usura (cf. Levítico 25.35-37), também, este ao trabalhar deveria receber “seu salario antes do pôr-do-sol [3].
 Jó[4], enquanto questionava Deus, mostra claramente como um cidadão exemplar, também cuidava dos estrangeiros: “nunca deixei um estrangeiro dormir na rua; os viajantes sempre se hospedaram na minha casa.” (Jó 31.32)
 Há alguns exemplos de estrangeiros que tiveram êxito no antigo testamento, a ex-prostituta de Canaã Raabe (Josué 2) , o soldado hitita Urias (1Samuel 11), Rute a moça moabita ( Rute 1-4), Ornã o jebuseu (1 Crônicas 20), entre outros, deixando claro que os imigrantes, não formam esquecidos por Deus e nem pela lei.
  Nos Salmo 94.1-10 contidos no antigo testamento os autores em alguns casos clamam por justiça, destacamos um trecho a seguir:
         Ó SENHOR Deus, a quem a vingança pertence, ó Deus, a quem a vingança pertence, mostra-te resplandecente! Exalta-te, tu, que és juiz da terra; dá o pago aos soberbos. Até quando os ímpios, SENHOR, até quando os ímpios saltarão de prazer?  Até quando proferirão e dirão coisas duras e se gloriarão todos os que praticam a iniquidade?  Reduzem a pedaços o teu povo, SENHOR, e afligem a tua herança.  Matam a viúva e o estrangeiro e ao órfão tiram a vida. E dizem: O SENHOR não o verá; nem para isso atentará o Deus de Jacó. Atendei, ó brutais dentre o povo; e vós, loucos, quando sereis sábios? Aquele que fez o ouvido, não ouvirá? E o que formou o olho, não verá? Aquele que argui as nações, não castigará? E o que dá ao homem o conhecimento, não saberá? (ARC, GRIFO NOSSO)
 Os livros dos profetas também tratam de questões ligadas aos estrangeiros ora denunciando os hebreus de não cumprirem a lei divina, extorquindo e colocando os adventícios numa condição social lastimável, ora dando-lhes esperança mostrando que o Deus de Israel não se esqueceria dos estrangeiros.
 O profeta Isaías, por exemplo, fala que o estrangeiro não seria discriminado (cf. Isaías 56.3,6). Jeremias fala que uma das condições para se cumprir uma promessa para os hebreus, estes deviam cuidar dos estrangeiros (cf. Jeremias 7.1-7), e, ainda em Jeremias, os hebreus são convocados a executar o direito e a justiça, “... não oprimindo o estrangeiro...” (Jeremias 22.3). O profeta Zacarias e o profeta Malaquias, também, clamam contra a opressão imposta a estrangeiros (cf. Zacarias 7.10; Malaquias 3.5).
  O entendimento formado a partir do antigo testamento no que tange ao estrangeiro, no mínimo deve ser o de respeito, direito a uma vida digna, emprego não exploratório e que não haja discriminação para os adventícios existentes.    O cristianismo que adota o antigo testamento com escritura divinamente inspirada deve estar de olhos abertos e braço estendido para aqueles que procuram refugio.
Parnaíba 14 de outubro de 2015



[1] Pesquisa realizada no texto “Amara ao estrangeiro” de Nicolleta Crostti, p.7
[2] Levítico 19.34
[3] Texto de Deuteronômio 24.15 ARA.
[4] Personagem do livro veterotestamentário que leva o mesmo nome, onde narra a trágica história de um homem que sofre com o mal, mais por fim tem o seu sofrimento transformado em bem-aventuranças. 

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

A QUESTÃO DA ESCRAVATURA NA BÍBLIA

A QUESTÃO  DA ESCRAVATURA NA BÍBLIA

 A questão da escravatura no antigo testamento e as implicações da permissão divina para essa condição social tem sido alvo de duras críticas a esse respeito. Não podemos negar que o homem, na estratificação social, criou classes, castas e estamentos, que subjugou outros semelhantes a ele[1], e dentro dessa regra alguns dentre o povo hebreu, historicamente, também, participaram dessa imposição social, não por seguir fielmente a ordem divina, mas num desvio de conduta da ordem social imposta por Jeová.
        Não é intenção nesse trecho formar uma opinião apologética sobre o fato, mas mostrar o ensino veterotestamentário concernente ao que se refere como escravatura permitida por Deus, e as diretrizes de como deveriam ser tratados todos os escravos do povo hebreu. À medida que desenvolvemos o trecho ficará clara a diferença entre o escravo para hebreu, consonante com ensinos de Jeová, e para as demais nações.
          O vocábulo hebraico para escravo (dbeebed”) tem o sentido de servo, servidor, súditos e até adoradores. Verificando esse vocábulo percebemos que para o hebreu a palavra “escravo” não soava da mesma maneira que para um grego (“douleuw, douleuo - ser escravo, privado de liberdade, ou “doulov, doulos - homem numa condição servil) ou para um romano ( slavus, sclavus do latim medieval, que significa literalmente cativo, privado de liberdade).[2] No nosso vernáculo a palavra em questão, que foi herdada do latim, leva-nos a entender diferentemente do que a cultura judaica, inicialmente, entendia por escravo.

            O escravo era proibido de sofrer maltrato (cf. Êxodo 21.26,27), Deus lembra o povo de hebreu dizendo: “Lembrar-te-ás de que foste escravo no Egito e de que o SENHOR te livrou dali; pelo que te ordeno que faças isso”.
            Se algum hebreu tirasse a vida de um escravo seria punido (cf. Êxodo 21.20), e se maltratasse perderia o direito de tê-lo como servo (cf. Êxodo 21.26,27), se um animal, de algum senhor, o ferisse, esse animal deveria ser apedrejado (cf. Êxodo 21.32). O escravo recebia pagamento, com o qual poderia comprar seus alimentos e até sua liberdade (em caso de escravos por roubos, furtos ou dividas), mas se, enquanto escravo, nascesse filhos, essas crianças seriam sustentadas pelos seus senhores (Levítico 22.11).
        Se o escravo fugisse, não poderia ser devolvido para seus senhores, antes deveria ser acolhido e não oprimido (cf. Deuteronômio 23.15-16), fica subentendido que o escravo só fugia quando sofria algum tipo de maltrato.
        Havia duas datas comemorativas em Israel onde o escravo poderia escolher continuar com seu senhor ou viver livre, era o ano sabático e festa do jubileu. A decisão caberia ao escravo (cf. Êxodo 21.1-5).
          Para que pudesse de fato ser um escravo, este deveria se submeter a uma exigência ante a lei, deveria ser circuncidado, tornando-se assim um professo da fé hebreia (cf. Gênesis 17.1-27; Êxodo 12.44), e se não aceitasse tal imposição seria devolvido a sua nação de origem.
        Somente em alguns casos um ser humano escravo era forçado a trabalhar, era o caso de um ladrão que era submetido à servidão, por não conseguir restituir seu roubo (Êxodo 22.3), mas mesmo nessa condição receberia seu pagamento.
      Se algum hebreu raptasse alguém, ou o vendesse, ou fosse achado em suas mãos deveria ser morto (Êxodo 21.16), aqui fica clara a diferença entre escravo para o antigo testamento e os escravos em outras nações[3].
        A submissão de homens e mulheres que se tornavam escravos era devido à condição social ou por dividas, que também os levavam a uma condição social ruim, ressaltamos, porém, que a ordem divina não foi para fazer escravos e sim acolher servos.


Oaidson Bezerra e Silva



[1] VILA NOVA, Sebastião, Introdução à sociologia, 5 ed. rev  e aum. : São Paulo; Atlas 2000, pg. 91.
[2] Copyright©2001... 2009 Instituto Antônio Houaiss. Produzido e distribuído pela Editora Objetiva Ltda. Seção  Dicionário Língua Portuguesa.

domingo, 11 de outubro de 2015

EMPRÉSTIMOS NO ANTIGO TESTAMENTO


            Grosso modo e resumindo podemos afirmar que empréstimos fazem parte da sociedade como costumes muito antigos e que é difícil datar com precisão o inicio desse costume.
            Analisando os cinco primeiros livros da bíblia pode-se aprender muito sobre a economia de um povo em desenvolvimento. Na civilização hebreia que estava se formando, “os empréstimos eram essenciais para permitir que as pessoas saíssem da pobreza” [1], além de ser parte da responsabilidade social daquele povo. Os empréstimos serviam para que alguns hebreus investissem em um pequeno negócio, por mais atual que isso pareça, para suprirem suas necessidades e se tornarem autossustentáveis.
            No vernáculo hebraico existem cinco palavras para indicar o termo empréstimo, nashah (“hvn”) que significa emprestar, ser credor, lavah (“hwl) tomar emprestado, nathan (“Ntn”) dar, abat (“jbe”),  tomar como penhor ou dar como penhor e sha’al ou sha’el (“lav”) pedir emprestado.
            A pratica dos empréstimos era regulamentado pela lei mosaica e visava à ajuda aos pobres, vejamos o que um trecho bíblico diz:
Porque o SENHOR, teu Deus, te abençoará, como te tem dito; assim, emprestarás a muitas nações, mas não tomarás empréstimos; e dominarás sobre muitas nações, mas elas não dominarão sobre ti. Quando entre ti houver algum pobre de teus irmãos, em alguma das tuas portas, na tua terra que o SENHOR, teu Deus, te dá, não endurecerás o teu coração, nem fecharás a tua mão a teu irmão que for pobre; antes, lhe abrirás de todo a tua mão e livremente lhe emprestarás o que lhe falta, quanto baste para a sua necessidade. Guarda-te que não haja palavra de Belial no teu coração, dizendo: Vai-se aproximando o sétimo ano, o ano da remissão, e que o teu olho seja maligno para com teu irmão pobre, e não lhe dês nada; e que ele clame contra ti ao SENHOR, e que haja em ti pecado. Livremente lhe darás, e que o teu coração não seja maligno, quando lhe deres; pois por esta causa te abençoará o SENHOR, teu Deus, em toda a tua obra e em tudo no que puseres a tua mão. Pois nunca cessará o pobre do meio da terra; pelo que te ordeno, dizendo: Livremente abrirás a tua mão para o teu irmão, para o teu necessitado e para o teu pobre na tua terra. (DEUTERONÔMIO 15.6-11) [2]
            No caso de empréstimos a lei proibia a pratica de usura (cobrança de juros) com os seus compatriotas e só era aceitável a cobrança de juros quando os empréstimos eram feito a não hebreus (cf. Deuteronômio 15.6; 23.19-20).
            O Pentateuco mostra um ciclo onde as dividas eram perdoadas. A cada sete anos o devedor tinha suas dividas anuladas por seus credores. Mas não se pode pensar que os hebreus se aproveitavam dessa lei, enganando seus credores, haja vista que aquele que não devolvessem os empréstimos tomados era considerado ímpio (cf. Salmo 37.21), e os que ultrapassam esse ciclo não conseguindo sanar suas dividas, assim agiam por pura falta de condições (cf. Deuteronômio 24.10-17; 15.1-6).
            Encontramos nos Salmos declarações de retribuições aos que tinham como pratica o emprestar como ajuda aos pobres, dando condições a estes de minimizarem sua condição social e saírem da pobreza, veja exemplo a seguir: “O que não empresta o seu dinheiro com usura, nem aceita suborno contra o inocente. Quem deste modo procede não será jamais abalado.” (Salmos 15.5) e “ditoso o homem que se compadece e empresta; ele defenderá a sua causa em juízo”. (Salmos 112.5). Ainda nos livros conhecidos como sapienciais encontramos o apoio dessas praticas visando o bem social (cf. Salmos 37.26; Provérbios 19.17).
            O estudo bíblico cuidadoso do tema aqui esboçado leva-nos a compreender que a pratica do empréstimo de bens poderia ajudar os pobres, dando-lhes condições de criarem um meio de renda que os ajudassem. Mas, como comentado em alguns tópicos anteriores, e historicamente falando, existiram hebreus que praticavam justamente o contrario do sistema de leis imposto por Deus no antigo testamento o que acabava criando problemas sociais sérios, e em relação a empréstimos não foi diferente.





[1] COPE, Landa, The Old Testament Template - Rediscovering God's Principles for Discipling  2°Ed. , The Template Instituto Press, Burtigny, Suíça.May  2008, Pg. 39 Cap. 2.
[2] Bíblia Sagrada versão Almeida Revista e Corrigida.