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terça-feira, 10 de novembro de 2015

VOCACIONADO! EU?



   "Rogo-vos, pois, eu, o prisioneiro no Senhor, que andeis como é digno da vocação com que fostes
 chamados" Efésios 4.1





  Em minhas viagens internas onde tento me encontrar, busco entender o sentido de minha existência.  Acredito que não sou o único. Afinal o que estamos fazendo aqui e agora, ou, o que seremos e faremos no espaço de tempo que chamamos de futuro?
Admiro aqueles jovens decididos, que quando questionados sobre seu futuro não titubeiam e de pronto, com brilhos nos olhos, respondem: “Serei isso, ou farei isso!”. Mas cá pra nós poucos possuem essa audácia e essa certeza. Acredito que a maioria, e há alguns anos me incluía nela, não consegue delinear seu ímpeto vocativo de maneira tão clara e definida. A verdade é que o futuro não nos é confortável e, misturado a isso, ainda temos a falta de propósitos.
  Perdidos com a incerteza do futuro e uma vida desprovida de proposito muitos jovens se perdem na estrutura capitalista, servindo de massa de produção e com isso deixam de lado a subjetividade para alcançar o que as empresas, onde estão locados, exigem. Esses são descaracterizados e sem rostos, tornam-se apenas mais um na busca pelo “sonho americano”. Outros se perdem no consumismo, na busca pelo prazer a qualquer custo, nas distorções de imagem, comportamento. Há ainda aqueles poucos, que se entregam a militâncias ou se agregam alguma cultura vivendo um estilo de vida alternativo.
  Independentemente da escolha que se faz, trará consigo o reflexo e consequências profundas na vida e no modo como se enxerga a vida. É muito importante para todos descobrirem suas vocações, mas para o jovem de hoje isso é crucial.
  É na vocação que se encontra sentido na vida. A vocação válida a vida. Vocação, ou chamado (aqui tratados como sinônimos), não se reduz a profissão, mas diz respeito também ao chamado de Deus para cada um de nós e para o seu povo. Vocação é aquilo que somos chamados a ser e a realizar, como pessoas, tanto coletiva como individualmente[1].
 



Em se tratando de vocação, é necessário falar de dois aspectos, o mandato cultural e mandato missional.  No mandato cultural lembramos de Adão e Eva em suas atribuições em reger o Éden. Gillis resume o mandato cultural da seguinte forma:
A identidade de gênero, a sexualidade, o casamento, a família, a sociedade,                      as nações, o cuidado com meio ambiente, o trabalho, a economia, a governança política, a cultura e a espiritualidade estão contidos na benção-vocação comunicadas por Deus à humanidade como um todo (Mandato Cultural) e que permanece essencialmente inalterada desde as origens. Responder à convocação divina e cumprir a agenda proposta pelo Criador como pessoas, por meio do corpo, na história, nas interações uns com os outros e com a Terra é encontrar o sentido básico para a existência humana, pessoal e coletiva.[2]

Max Weber em sua famosa obra “A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo”, mostra um elemento teológico que transformou radicalmente a noção do trabalho, esse foi o conceito de “vocação”. Até a Reforma vocação era limitada àqueles que se dedicavam à vida monástica. O movimento da Reforma trouxe o entendimento que vocação incluía todas as ocupações honestas, criando assim um novo sentido às atividades tidas como seculares.
Lutero considerou o labor diário em um emprego secular como vocação divina, assim trazendo o impulso religioso para dentro da sociedade. Calvino foi mais longe ainda, ao afirmar que o cristão deve servir a Deus não apenas “dentro” da sua vocação, num espírito um tanto passivo, mas “por meio” da sua vocação, num espírito mais ativo e empreendedor. Em suma, a vocação envolveria uma adequação entre indivíduos e seus trabalhos, conectando-nos com o propósito mais elevado que podemos ter -- o serviço de Deus[3].
É bom salientar que o protestantismo ajudou no desenvolvimento positivo do capitalismo, mas as mazelas criadas por este sistema são consequências do pecado e da não aplicação integral do evangelho.
Encontrar o sentido em todos os âmbitos relacionais do homem é a maneira que entendemos o mandato cultural. Há termo teológico que encontramos em Weber é o conceito da glória de Deus na sociedade, transformar os aspectos da vida social como um todo de modo que tudo que se faz torna-se meio de honrar a Deus. Sua profissão, sua família, suas relações, seu modo de amar e fazer arte, antes visto como algo secular e tolerado por Deus, reveste-se de um novo sentido, com o entendimento que pela graça e misericórdia do Criador tudo que fazemos pode glorificar à Deus. O sofrimento acontece quando escolhemos uma vida baseada nas pressões de mercado, ou na ganancia desenfreada, ou, ainda, no desejo de acumulo de bens. Jesus foi certeiro ao falar: “Que adianta ganhar o mundo inteiro e perder sua alma?”.
O mandato missional não altera a vocação cultural que o ser humano possui, porém dá uma nova dimensão a vocação. Essa nova dimensão é o resgate e a reorganização da criação corrompida. Nesse âmbito todos, nascidos de novo, são responsáveis por uma faceta desse aspecto.
Todos os redimidos foram chamados por Deus e para Deus (Isaías 43.7). Somos chamados não por homens ou instituições, mas por Deus e o nosso serviço também estará direcionado à Ele. Dessa forma toda a igreja é chamada, convocado a salvação, santidade, comunhão e missão. A nossa existência não é despropositada, sem nexo, sem compromisso, sem valor. 
Você nasceu em Cristo com o propósito de servi-lo sendo sal e luz onde estiver. Assim, a evangelização, plantio de igrejas, encorajamento dos crentes, serviço social e ensino da Palavranão são responsabilidade de um grupo seleto de pastores e missionários, mas de toda a Igreja. Se você é discípulo de Cristo, já está convocado a servi-lo com tudo o que você é e tudo o que você tem. Suas forças, competência, oportunidades, emprego, inteligência, relacionamentos, finanças e família.[4]
A vocação perpassa toda nossa caminhada. E é nessa caminhada que servimos a Deus. Nossos relacionamentos são únicos. Nossos amigos, nossos familiares, por onde andamos, isso somente nós poderemos fazer, e somente nós, tendo em vista nossa vocação, iremos manifestar Deus e Seu reino nessa trilha.
Mas há ainda um chamado especifico, uma vocação especifica. São os dons que Cristo distribuiu a igreja (Efésios 4.12). Através desses dons, presentes, que Sua igreja é edificada. Dons específicos e que desenvolvem funções especificas. Aqueles que recebem essa vocação, não recebem para se tornarem superiores aos demais, mas justamente o contrario, servir.
O chamado será para exercício, para ser realizado, ele é funcional e não se limitará a um lugar especifico. Afinal a vocação é dada a pessoas, e isso será exercido independentemente onde elas estiverem inseridas. Isso vai contra a ideia de “para onde Deus me chamou”. Na realidade Ele nos chamou para exercer nossos dons onde estivermos. Vocação é o que fazemos e não         onde iremos.  O artesão não será artesão por estar em local especifico. Ele é artesão. Os pastores serão pastores independentemente onde estejam, são pastores. Os mestres ensinarão a palavra onde quer que estejam, são mestres.
Quando você for chamado por Deus para um ministério não fique aflito qual local irá exercê-lo, pode ser na praça do outro da sua casa, o Deus que te chamou te guiará para que Sua vontade seja plenamente cumprida.
Lembra-se somente disso, todos somos chamados e vocacionados para fazer algo no reino de Deus. Deus não nos chama para inutilidade ou uma vida sem propósitos. Conheça mais a Ele, dedique sua vida ao reino, coloque seus talentos a serviço do Rei, Ele te usará.









[4] LINDÓRIO, Ronaldo; Vocacionados. Editora Betânia, 2014, p9. 

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

TRATAMENTO AO ESTRANGEIRO SEGUNDO O ANTIGO TESTAMENTO



“... era estrangeiro, e hospedastes-me...” (JESUS CRISTO)




 As imigrações legais e, principalmente, ilegais tem se tornado o centro das atenções dos países da Europa e de outros países desenvolvidos
 Há quem diga que o mundo vive a maior crise humanitária, o número de deslocados e refugiados já ultrapassam a quantidade de pessoas nessas situações por ocasião da segunda guerra mundial. A estimativa é que hoje existem 60 milhões de pessoas deslocadas violentamente de suas casas por conta de conflitos políticos, étnicos e religiosos. Dessas 60 milhões cerca de 20 milhões tiveram que deixar seu país. Em 2014 a média de pessoas que tiveram que abonar suas casas e viver como estrangeiros foi de quase 42.500 pessoas por dia!
 O estudo que se segue faz parte de uma serie de estudos realizados para discutir a bíblia e a questão da pobreza.  Os estrangeiros que vagueiam sem terra, e por consequência, sem renda, acabam como marginais na  sociedade e sobrevivem em condições de total exclusão.  
  Que a igreja não feche os olhos para essa realidade.

ESTRANGEIROS, QUAL TRATAMENTO SEGUNDO ANTIGO TESTAMENTO.

 Os estrangeiros (gentio, não israelita) não deveriam ser maltratados, nem explorados. Jeová devota-lhes amor e os hebreus, também, deviam amá-los e cuidar desses estrangeiros. (cf. Deuteronômio 10.18,19). O argumento divino para que os hebreus agissem assim era simples: “Amai, pois, o estrangeiro, porque fostes estrangeiros na terra do Egito.” (DEUTERONÔMIO 10.19).
 Na lei judaica, presente em Deuteronômio 27.19, se algum judeu oprimisse algum adventício era amaldiçoado pela própria lei divina. A sobrevivência digna para o estrangeiro era assegurada por lei, se não conseguisse sustentar-se não poderia estar reduzido a uma condição de marginalidade social (cf. Levítico 25.35), as colheitas “nos campos, nas vindimas e olivais não poderiam ser de todo colhido após o varejamento, deviam sobrar alguns frutos daquela colheita afim de que os estrangeiros pudessem respigar alguma coisa deixada[1]”, o fato de os lavradores deixarem algumas respiga dava ao estrangeiro a oportunidade de juntar alimentos de uma forma digna e não mendigar.
 A pesquisa textual focada no Pentateuco leva-nos entender outro fator importante: a lei torna iguais, perante ela, estrangeiros e nativos. “Como o natural, será entre vós o estrangeiro que peregrina convosco; amá-lo-eis como a vós mesmos, pois estrangeiros fostes na terra do Egito. Eu sou o SENHOR, vosso Deus” [2]. (cf. Êxodo 14.29; Levítico 24.22; Números 9.15; Números 15.16). A discriminação racial não poderia ocorrer, haja vista a ordenança de Deus em tratar o estrangeiro com respeito e amor. O hebreu foi advertido por Deus para não perverter os direitos dos não hebreus. (cf. Deuteronômio 27.19).
 Outro tratamento interessante é que ao realizar algum empréstimo para o estrangeiro não era permitido a pratica de usura (cf. Levítico 25.35-37), também, este ao trabalhar deveria receber “seu salario antes do pôr-do-sol [3].
 Jó[4], enquanto questionava Deus, mostra claramente como um cidadão exemplar, também cuidava dos estrangeiros: “nunca deixei um estrangeiro dormir na rua; os viajantes sempre se hospedaram na minha casa.” (Jó 31.32)
 Há alguns exemplos de estrangeiros que tiveram êxito no antigo testamento, a ex-prostituta de Canaã Raabe (Josué 2) , o soldado hitita Urias (1Samuel 11), Rute a moça moabita ( Rute 1-4), Ornã o jebuseu (1 Crônicas 20), entre outros, deixando claro que os imigrantes, não formam esquecidos por Deus e nem pela lei.
  Nos Salmo 94.1-10 contidos no antigo testamento os autores em alguns casos clamam por justiça, destacamos um trecho a seguir:
         Ó SENHOR Deus, a quem a vingança pertence, ó Deus, a quem a vingança pertence, mostra-te resplandecente! Exalta-te, tu, que és juiz da terra; dá o pago aos soberbos. Até quando os ímpios, SENHOR, até quando os ímpios saltarão de prazer?  Até quando proferirão e dirão coisas duras e se gloriarão todos os que praticam a iniquidade?  Reduzem a pedaços o teu povo, SENHOR, e afligem a tua herança.  Matam a viúva e o estrangeiro e ao órfão tiram a vida. E dizem: O SENHOR não o verá; nem para isso atentará o Deus de Jacó. Atendei, ó brutais dentre o povo; e vós, loucos, quando sereis sábios? Aquele que fez o ouvido, não ouvirá? E o que formou o olho, não verá? Aquele que argui as nações, não castigará? E o que dá ao homem o conhecimento, não saberá? (ARC, GRIFO NOSSO)
 Os livros dos profetas também tratam de questões ligadas aos estrangeiros ora denunciando os hebreus de não cumprirem a lei divina, extorquindo e colocando os adventícios numa condição social lastimável, ora dando-lhes esperança mostrando que o Deus de Israel não se esqueceria dos estrangeiros.
 O profeta Isaías, por exemplo, fala que o estrangeiro não seria discriminado (cf. Isaías 56.3,6). Jeremias fala que uma das condições para se cumprir uma promessa para os hebreus, estes deviam cuidar dos estrangeiros (cf. Jeremias 7.1-7), e, ainda em Jeremias, os hebreus são convocados a executar o direito e a justiça, “... não oprimindo o estrangeiro...” (Jeremias 22.3). O profeta Zacarias e o profeta Malaquias, também, clamam contra a opressão imposta a estrangeiros (cf. Zacarias 7.10; Malaquias 3.5).
  O entendimento formado a partir do antigo testamento no que tange ao estrangeiro, no mínimo deve ser o de respeito, direito a uma vida digna, emprego não exploratório e que não haja discriminação para os adventícios existentes.    O cristianismo que adota o antigo testamento com escritura divinamente inspirada deve estar de olhos abertos e braço estendido para aqueles que procuram refugio.
Parnaíba 14 de outubro de 2015



[1] Pesquisa realizada no texto “Amara ao estrangeiro” de Nicolleta Crostti, p.7
[2] Levítico 19.34
[3] Texto de Deuteronômio 24.15 ARA.
[4] Personagem do livro veterotestamentário que leva o mesmo nome, onde narra a trágica história de um homem que sofre com o mal, mais por fim tem o seu sofrimento transformado em bem-aventuranças. 

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

A QUESTÃO DA ESCRAVATURA NA BÍBLIA

A QUESTÃO  DA ESCRAVATURA NA BÍBLIA

 A questão da escravatura no antigo testamento e as implicações da permissão divina para essa condição social tem sido alvo de duras críticas a esse respeito. Não podemos negar que o homem, na estratificação social, criou classes, castas e estamentos, que subjugou outros semelhantes a ele[1], e dentro dessa regra alguns dentre o povo hebreu, historicamente, também, participaram dessa imposição social, não por seguir fielmente a ordem divina, mas num desvio de conduta da ordem social imposta por Jeová.
        Não é intenção nesse trecho formar uma opinião apologética sobre o fato, mas mostrar o ensino veterotestamentário concernente ao que se refere como escravatura permitida por Deus, e as diretrizes de como deveriam ser tratados todos os escravos do povo hebreu. À medida que desenvolvemos o trecho ficará clara a diferença entre o escravo para hebreu, consonante com ensinos de Jeová, e para as demais nações.
          O vocábulo hebraico para escravo (dbeebed”) tem o sentido de servo, servidor, súditos e até adoradores. Verificando esse vocábulo percebemos que para o hebreu a palavra “escravo” não soava da mesma maneira que para um grego (“douleuw, douleuo - ser escravo, privado de liberdade, ou “doulov, doulos - homem numa condição servil) ou para um romano ( slavus, sclavus do latim medieval, que significa literalmente cativo, privado de liberdade).[2] No nosso vernáculo a palavra em questão, que foi herdada do latim, leva-nos a entender diferentemente do que a cultura judaica, inicialmente, entendia por escravo.

            O escravo era proibido de sofrer maltrato (cf. Êxodo 21.26,27), Deus lembra o povo de hebreu dizendo: “Lembrar-te-ás de que foste escravo no Egito e de que o SENHOR te livrou dali; pelo que te ordeno que faças isso”.
            Se algum hebreu tirasse a vida de um escravo seria punido (cf. Êxodo 21.20), e se maltratasse perderia o direito de tê-lo como servo (cf. Êxodo 21.26,27), se um animal, de algum senhor, o ferisse, esse animal deveria ser apedrejado (cf. Êxodo 21.32). O escravo recebia pagamento, com o qual poderia comprar seus alimentos e até sua liberdade (em caso de escravos por roubos, furtos ou dividas), mas se, enquanto escravo, nascesse filhos, essas crianças seriam sustentadas pelos seus senhores (Levítico 22.11).
        Se o escravo fugisse, não poderia ser devolvido para seus senhores, antes deveria ser acolhido e não oprimido (cf. Deuteronômio 23.15-16), fica subentendido que o escravo só fugia quando sofria algum tipo de maltrato.
        Havia duas datas comemorativas em Israel onde o escravo poderia escolher continuar com seu senhor ou viver livre, era o ano sabático e festa do jubileu. A decisão caberia ao escravo (cf. Êxodo 21.1-5).
          Para que pudesse de fato ser um escravo, este deveria se submeter a uma exigência ante a lei, deveria ser circuncidado, tornando-se assim um professo da fé hebreia (cf. Gênesis 17.1-27; Êxodo 12.44), e se não aceitasse tal imposição seria devolvido a sua nação de origem.
        Somente em alguns casos um ser humano escravo era forçado a trabalhar, era o caso de um ladrão que era submetido à servidão, por não conseguir restituir seu roubo (Êxodo 22.3), mas mesmo nessa condição receberia seu pagamento.
      Se algum hebreu raptasse alguém, ou o vendesse, ou fosse achado em suas mãos deveria ser morto (Êxodo 21.16), aqui fica clara a diferença entre escravo para o antigo testamento e os escravos em outras nações[3].
        A submissão de homens e mulheres que se tornavam escravos era devido à condição social ou por dividas, que também os levavam a uma condição social ruim, ressaltamos, porém, que a ordem divina não foi para fazer escravos e sim acolher servos.


Oaidson Bezerra e Silva



[1] VILA NOVA, Sebastião, Introdução à sociologia, 5 ed. rev  e aum. : São Paulo; Atlas 2000, pg. 91.
[2] Copyright©2001... 2009 Instituto Antônio Houaiss. Produzido e distribuído pela Editora Objetiva Ltda. Seção  Dicionário Língua Portuguesa.

domingo, 11 de outubro de 2015

EMPRÉSTIMOS NO ANTIGO TESTAMENTO


            Grosso modo e resumindo podemos afirmar que empréstimos fazem parte da sociedade como costumes muito antigos e que é difícil datar com precisão o inicio desse costume.
            Analisando os cinco primeiros livros da bíblia pode-se aprender muito sobre a economia de um povo em desenvolvimento. Na civilização hebreia que estava se formando, “os empréstimos eram essenciais para permitir que as pessoas saíssem da pobreza” [1], além de ser parte da responsabilidade social daquele povo. Os empréstimos serviam para que alguns hebreus investissem em um pequeno negócio, por mais atual que isso pareça, para suprirem suas necessidades e se tornarem autossustentáveis.
            No vernáculo hebraico existem cinco palavras para indicar o termo empréstimo, nashah (“hvn”) que significa emprestar, ser credor, lavah (“hwl) tomar emprestado, nathan (“Ntn”) dar, abat (“jbe”),  tomar como penhor ou dar como penhor e sha’al ou sha’el (“lav”) pedir emprestado.
            A pratica dos empréstimos era regulamentado pela lei mosaica e visava à ajuda aos pobres, vejamos o que um trecho bíblico diz:
Porque o SENHOR, teu Deus, te abençoará, como te tem dito; assim, emprestarás a muitas nações, mas não tomarás empréstimos; e dominarás sobre muitas nações, mas elas não dominarão sobre ti. Quando entre ti houver algum pobre de teus irmãos, em alguma das tuas portas, na tua terra que o SENHOR, teu Deus, te dá, não endurecerás o teu coração, nem fecharás a tua mão a teu irmão que for pobre; antes, lhe abrirás de todo a tua mão e livremente lhe emprestarás o que lhe falta, quanto baste para a sua necessidade. Guarda-te que não haja palavra de Belial no teu coração, dizendo: Vai-se aproximando o sétimo ano, o ano da remissão, e que o teu olho seja maligno para com teu irmão pobre, e não lhe dês nada; e que ele clame contra ti ao SENHOR, e que haja em ti pecado. Livremente lhe darás, e que o teu coração não seja maligno, quando lhe deres; pois por esta causa te abençoará o SENHOR, teu Deus, em toda a tua obra e em tudo no que puseres a tua mão. Pois nunca cessará o pobre do meio da terra; pelo que te ordeno, dizendo: Livremente abrirás a tua mão para o teu irmão, para o teu necessitado e para o teu pobre na tua terra. (DEUTERONÔMIO 15.6-11) [2]
            No caso de empréstimos a lei proibia a pratica de usura (cobrança de juros) com os seus compatriotas e só era aceitável a cobrança de juros quando os empréstimos eram feito a não hebreus (cf. Deuteronômio 15.6; 23.19-20).
            O Pentateuco mostra um ciclo onde as dividas eram perdoadas. A cada sete anos o devedor tinha suas dividas anuladas por seus credores. Mas não se pode pensar que os hebreus se aproveitavam dessa lei, enganando seus credores, haja vista que aquele que não devolvessem os empréstimos tomados era considerado ímpio (cf. Salmo 37.21), e os que ultrapassam esse ciclo não conseguindo sanar suas dividas, assim agiam por pura falta de condições (cf. Deuteronômio 24.10-17; 15.1-6).
            Encontramos nos Salmos declarações de retribuições aos que tinham como pratica o emprestar como ajuda aos pobres, dando condições a estes de minimizarem sua condição social e saírem da pobreza, veja exemplo a seguir: “O que não empresta o seu dinheiro com usura, nem aceita suborno contra o inocente. Quem deste modo procede não será jamais abalado.” (Salmos 15.5) e “ditoso o homem que se compadece e empresta; ele defenderá a sua causa em juízo”. (Salmos 112.5). Ainda nos livros conhecidos como sapienciais encontramos o apoio dessas praticas visando o bem social (cf. Salmos 37.26; Provérbios 19.17).
            O estudo bíblico cuidadoso do tema aqui esboçado leva-nos a compreender que a pratica do empréstimo de bens poderia ajudar os pobres, dando-lhes condições de criarem um meio de renda que os ajudassem. Mas, como comentado em alguns tópicos anteriores, e historicamente falando, existiram hebreus que praticavam justamente o contrario do sistema de leis imposto por Deus no antigo testamento o que acabava criando problemas sociais sérios, e em relação a empréstimos não foi diferente.





[1] COPE, Landa, The Old Testament Template - Rediscovering God's Principles for Discipling  2°Ed. , The Template Instituto Press, Burtigny, Suíça.May  2008, Pg. 39 Cap. 2.
[2] Bíblia Sagrada versão Almeida Revista e Corrigida.