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sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

O PENSAMENTO SOCIAL DOS REFORMADORES


O PENSAMENTO SOCIAL DOS REFORMADORES  


Oaidson Bezerra e Silva

         
Em comemoração aos 498 anos da reforma protestante, esse post trata sobre um dos aspectos revolucionários oriundos da reforma. Olhando para esse movimento e sua profunda influencia no mundo ocidental, não podemos deixar de agradecer a todos aqueles que entregaram suas vidas até as ultimas consequências por aquilo que acreditavam: o retorno e a submissão da igreja ao senhorio de Cristo e Sua palavra.
A reforma tem suas raízes muito antes de 1517, porém foi nessa data que Martinho Lutero afixa suas 95 teses na abadia de Westminster, dando inicio ao que conhecemos como reforma protestante. Não iremos abordar a reforma em si, mas um dos resultados práticos quando nos voltamos para as sagradas escrituras.

 Lutero fixa e suas 95 teses na abadia de Westmister

No século XV e XVI, durante o movimento que ficou conhecido como Reforma, Calvino e Lutero, nomes centrais desse movimento e considerado, por muitos, pais das igrejas protestantes atuais, escreveram sobre a questão da pobreza e o compromisso da igreja cristã ante essa problemática.
 Lutero foi o responsável pela tradução da bíblia, que antes escrita em latim, para a língua alemã, com isso influenciou a língua e literatura germânica que surgiria mais tarde. A época em que viveu foi marcada por mudanças nos setores de produção e cultivo do material de subsistência. Novos mercados surgiram, havia fabricas que produziam em escalas maiores. A exploração de minério e vidro também estava em alta. Com esse tipo de produção houve um grande acumulo de capital, que voltava para a produção, posto de empregos e assalariamento surgem, era uma espécie de pré-capitalismo. Rietch (1995) observa:
A concentração econômica nas mãos de poderosas casas comerciais – Fugger, Welser e Höchstetter estavam entre as mais destacadas – deveu-se em muito à participação direta de algumas delas no financiamento da invasão e conquista do Novo Mundo, bem como aos enormes lucros advindos do daí decorrente comércio com as colônias[1].
Martinho Lutero foi um homem que sentiu dolorosamente as contradições sociais existentes. As famosas noventa e cinco teses, afixadas na abadia de Westminster (1517), revelam, em alguns trechos, o pensamento de Lutero da responsabilidade do cristão com o próximo. A tese quadragésima terceira e quarta dizem:
                                     Deve-se ensinar aos cristãos, procede melhor quem dá aos pobres ou empresta ao necessitado do que os que compram indulgência. É que pela obra de caridade cresce o amor ao próximo e o homem torna-se mais piedoso; pelas indulgências, porém, não se torna melhor senão mais seguro e livre da pena.
Para esse reformador, todo cristão é um sacerdote, livre para viver uma vida de serviço de amor a Deus e ao próximo. A mudança social começa com a liberdade baseada na justificação alcançada pela graça, e isso mediante a fé, que resulta num compromisso real não somente com Deus, mas com a sociedade. Lutero registra, que o cristão que enxerga seu próximo padecer necessidade e gasta seu dinheiro com indulgencias atrai a ira de Deus[2].
Max Weber (1864-1920) em seu livro “A ética protestante e o Espirito do Capitalismo” explica a concepção de Lutero sobre vocação, onde todos os homens (gênero) recebe uma tarefa outorgada por Deus, que cria algo que é indiscutivelmente novo:
a valorização do cumprimento do dever nos afazeres seculares como a mais alta forma que a atividade ética do indivíduo pudesse assumir segundo e isso foi um dos principais.[3]
Ainda de acordo com Weber o pensamento dos reformadores era que a vida do cristão aceitável a Deus, não era uma vida enclausurada num ascetismo exacerbado buscando uma moralidade distante do mundo, mas uma vida onde suas obrigações consigo mesmo e com os outros fossem cabalmente cumpridas, isso era sua vocação[4].         
A educação foi outro grande instrumento de mudança social aplicado por Lutero, ele acreditava que a educação seria o melhor e o mais eficaz agente de mudança social. As noventa e cinco teses publicadas por ele, circulou em quase todas as casas da Alemanha e levou a cada grupo e família a ler e debater cada tese, levando a uma ação de educação revolucionaria para época[5]. Nesse sentido Lutero não foi somente um reformador religioso, mas um reformador religioso e social.         
Do outro lado da reforma, mas não menos importante, temos João Calvino (1509-1564). Nascido em Noyon, Genebra, foi um dos grandes nomes da Reforma. O pensamento de Calvino influenciou e continua influenciando grande parte dos cristãos protestantes de hoje. Foi, ainda, um grande transformador da realidade social de Genebra, Suíça, sua cidade natal.

João Calvino

 A cidade de Genebra, assim como outros lugares da Europa do século XVI, enfrentava um período de instabilidade. O papa e as autoridades eclesiásticas enfrentavam um grande descontentamento por parte do povo. A venda de indulgências causou revolta. A pobreza contrastava com a riqueza do clero.  
Calvino, após sua conversão, foi convidado por Farel, um dos precursores da reforma na Suíça, a ajudar nos problemas sociais que existiam naquela cidade. De acordo com Biéler (1961) Calvino foi intimado e logo começou a trabalhar no sentido trazer mudanças aquela cidade:
 Farel intimou Calvino a vir para a Suíça, dizendo que Deus iria amaldiçoá-lo se recusasse. Chegando a Genebra, vendo a miséria e a corrupção de costumes aí reinantes, organizou um consistório composto por pastores e leigos que tinha autoridade para controlar a conduta dos cidadãos: o consistório determinava o vestuário, o comportamento; proibia a bebida, o jogo e a dança. Havia uma disciplina bastante severa com o objetivo de moralizar os costumes. Foram estabelecidas rijas regras de comportamento, era proibida a vadiagem e o comerciante ficava impedido de roubar no peso, ou cobrar além do preço justo.[6].
Incentivou o trabalho, o valor da fraternidade, a ajuda aos necessitados, o descanso semanal, e vários outros. Devido sua atuação Genebra se tornou exemplo para os cristãos. Em pouco tempo a pobreza ali foi reduzida drasticamente.  O ensino foi outro ponto forte de total apoio e incentivo por Calvino, ele acreditava que todos poderiam entender melhor a bíblia se possuíssem ensino elementar, por isso fundou a Academia de Genebra, local onde pastores iriam ministrar educação aos fiéis.
A justiça social, a abolição de classes, a igualdade faziam parte das preocupações de Calvino. A organização eclesiástica de Calvino demostrava, também, seu apelo social. A igreja era dividida em pastores, doutores, presbíteros e diáconos. Os pastores ficariam conectados as questões doutrinais da igreja, os doutores a educação, os presbíteros à disciplina e os diáconos as questões sociais. O serviço diaconal, no pensamento de Calvino, volta a ser como nas paginas neotestamentárias onde o serviço de distribuir as ofertas dos mais ricos aos pobres necessitados é colocado em pratica.             
Os bens deveriam servir a todos. Quem muito possuísse deveria, por obrigação, socorrer e dar amparo aos pobres. Cabia à igreja dar suporte necessário aos pobres, órfãos, viúvas, doentes e todos necessitados, pois:
A cada passo se pode encontrar, tanto nos decretos dos sínodos, quanto nos escritores antigos, que tudo quanto a Igreja possui, seja em propriedade, seja em dinheiro, é patrimônio dos pobres[7]”. 
           
E se fosse necessário, de acordo com Calvino, os bens da igreja e até as vestes sacerdotais deveriam ser vendidas para sustento dos pobres. As transformações decorrentes da Reforma, através de Calvino e Lutero foram muito mais profundas do que relatamos acima, e pode ser tema de estudos específicos com uma gama de material histórico para tal.

Soli Deo Gloria!






[1] Rieth, Ricardo. Economia Introdução ao Assunto in: KAYSER, Ilson. Martinho Lutero Obras Selecionadas., Rio Grande do Sul, Sinodal e Concórdia Editora Ltda, 1995, pg. 367.
[2] 45ª Tese.
[3] WEBER, Max, 1864-1920, A ética protestante e o espirito do capitalismo, 2ª ed. rev., São Paulo, SP, Pioneira Thomson Learning, 2005, pg.34.
[4] Ibid. pg. 34 e 35.
[5] KEIM, Ernesto Jacob, A educação e a revolução social de Martinho Lutero, Eccos Revista Científica, vol. 12, núm. 1, São Paulo, SP, 2010, pg. 223.
[6] BIÉLER, André. O humanismo social de Calvino. São Paulo: Edições Oikoumene, 1961, pg 99.
[7] Institutas de Calvino, livro IV cap. IV item 6.

quarta-feira, 11 de maio de 2016

sábado, 7 de maio de 2016

A DITADURA DA BELEZA E A REVOLUÇAO DAS MULHERES

De Augusto Cury, este livro pretende retratar o cotidiano de mulheres que sofrem caladas as consequências da ditadura da beleza. O autor tenta se opor a essa forma de opressão que pode levar mulheres, adolescentes e até mesmo crianças à frustração. Segundo o autor, influenciadas pela mídia e preocupadas em corresponder aos inatingíveis padrões de beleza que são apresentados, milhares de mulheres mutilam sua autoestima - e, muitas vezes, seus corpos - em busca da aceitação social e do desejo de se tornarem iguais às modelos nas passarelas, na TV e nas capas de revistas.











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terça-feira, 10 de novembro de 2015

VOCACIONADO! EU?



   "Rogo-vos, pois, eu, o prisioneiro no Senhor, que andeis como é digno da vocação com que fostes
 chamados" Efésios 4.1





  Em minhas viagens internas onde tento me encontrar, busco entender o sentido de minha existência.  Acredito que não sou o único. Afinal o que estamos fazendo aqui e agora, ou, o que seremos e faremos no espaço de tempo que chamamos de futuro?
Admiro aqueles jovens decididos, que quando questionados sobre seu futuro não titubeiam e de pronto, com brilhos nos olhos, respondem: “Serei isso, ou farei isso!”. Mas cá pra nós poucos possuem essa audácia e essa certeza. Acredito que a maioria, e há alguns anos me incluía nela, não consegue delinear seu ímpeto vocativo de maneira tão clara e definida. A verdade é que o futuro não nos é confortável e, misturado a isso, ainda temos a falta de propósitos.
  Perdidos com a incerteza do futuro e uma vida desprovida de proposito muitos jovens se perdem na estrutura capitalista, servindo de massa de produção e com isso deixam de lado a subjetividade para alcançar o que as empresas, onde estão locados, exigem. Esses são descaracterizados e sem rostos, tornam-se apenas mais um na busca pelo “sonho americano”. Outros se perdem no consumismo, na busca pelo prazer a qualquer custo, nas distorções de imagem, comportamento. Há ainda aqueles poucos, que se entregam a militâncias ou se agregam alguma cultura vivendo um estilo de vida alternativo.
  Independentemente da escolha que se faz, trará consigo o reflexo e consequências profundas na vida e no modo como se enxerga a vida. É muito importante para todos descobrirem suas vocações, mas para o jovem de hoje isso é crucial.
  É na vocação que se encontra sentido na vida. A vocação válida a vida. Vocação, ou chamado (aqui tratados como sinônimos), não se reduz a profissão, mas diz respeito também ao chamado de Deus para cada um de nós e para o seu povo. Vocação é aquilo que somos chamados a ser e a realizar, como pessoas, tanto coletiva como individualmente[1].
 



Em se tratando de vocação, é necessário falar de dois aspectos, o mandato cultural e mandato missional.  No mandato cultural lembramos de Adão e Eva em suas atribuições em reger o Éden. Gillis resume o mandato cultural da seguinte forma:
A identidade de gênero, a sexualidade, o casamento, a família, a sociedade,                      as nações, o cuidado com meio ambiente, o trabalho, a economia, a governança política, a cultura e a espiritualidade estão contidos na benção-vocação comunicadas por Deus à humanidade como um todo (Mandato Cultural) e que permanece essencialmente inalterada desde as origens. Responder à convocação divina e cumprir a agenda proposta pelo Criador como pessoas, por meio do corpo, na história, nas interações uns com os outros e com a Terra é encontrar o sentido básico para a existência humana, pessoal e coletiva.[2]

Max Weber em sua famosa obra “A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo”, mostra um elemento teológico que transformou radicalmente a noção do trabalho, esse foi o conceito de “vocação”. Até a Reforma vocação era limitada àqueles que se dedicavam à vida monástica. O movimento da Reforma trouxe o entendimento que vocação incluía todas as ocupações honestas, criando assim um novo sentido às atividades tidas como seculares.
Lutero considerou o labor diário em um emprego secular como vocação divina, assim trazendo o impulso religioso para dentro da sociedade. Calvino foi mais longe ainda, ao afirmar que o cristão deve servir a Deus não apenas “dentro” da sua vocação, num espírito um tanto passivo, mas “por meio” da sua vocação, num espírito mais ativo e empreendedor. Em suma, a vocação envolveria uma adequação entre indivíduos e seus trabalhos, conectando-nos com o propósito mais elevado que podemos ter -- o serviço de Deus[3].
É bom salientar que o protestantismo ajudou no desenvolvimento positivo do capitalismo, mas as mazelas criadas por este sistema são consequências do pecado e da não aplicação integral do evangelho.
Encontrar o sentido em todos os âmbitos relacionais do homem é a maneira que entendemos o mandato cultural. Há termo teológico que encontramos em Weber é o conceito da glória de Deus na sociedade, transformar os aspectos da vida social como um todo de modo que tudo que se faz torna-se meio de honrar a Deus. Sua profissão, sua família, suas relações, seu modo de amar e fazer arte, antes visto como algo secular e tolerado por Deus, reveste-se de um novo sentido, com o entendimento que pela graça e misericórdia do Criador tudo que fazemos pode glorificar à Deus. O sofrimento acontece quando escolhemos uma vida baseada nas pressões de mercado, ou na ganancia desenfreada, ou, ainda, no desejo de acumulo de bens. Jesus foi certeiro ao falar: “Que adianta ganhar o mundo inteiro e perder sua alma?”.
O mandato missional não altera a vocação cultural que o ser humano possui, porém dá uma nova dimensão a vocação. Essa nova dimensão é o resgate e a reorganização da criação corrompida. Nesse âmbito todos, nascidos de novo, são responsáveis por uma faceta desse aspecto.
Todos os redimidos foram chamados por Deus e para Deus (Isaías 43.7). Somos chamados não por homens ou instituições, mas por Deus e o nosso serviço também estará direcionado à Ele. Dessa forma toda a igreja é chamada, convocado a salvação, santidade, comunhão e missão. A nossa existência não é despropositada, sem nexo, sem compromisso, sem valor. 
Você nasceu em Cristo com o propósito de servi-lo sendo sal e luz onde estiver. Assim, a evangelização, plantio de igrejas, encorajamento dos crentes, serviço social e ensino da Palavranão são responsabilidade de um grupo seleto de pastores e missionários, mas de toda a Igreja. Se você é discípulo de Cristo, já está convocado a servi-lo com tudo o que você é e tudo o que você tem. Suas forças, competência, oportunidades, emprego, inteligência, relacionamentos, finanças e família.[4]
A vocação perpassa toda nossa caminhada. E é nessa caminhada que servimos a Deus. Nossos relacionamentos são únicos. Nossos amigos, nossos familiares, por onde andamos, isso somente nós poderemos fazer, e somente nós, tendo em vista nossa vocação, iremos manifestar Deus e Seu reino nessa trilha.
Mas há ainda um chamado especifico, uma vocação especifica. São os dons que Cristo distribuiu a igreja (Efésios 4.12). Através desses dons, presentes, que Sua igreja é edificada. Dons específicos e que desenvolvem funções especificas. Aqueles que recebem essa vocação, não recebem para se tornarem superiores aos demais, mas justamente o contrario, servir.
O chamado será para exercício, para ser realizado, ele é funcional e não se limitará a um lugar especifico. Afinal a vocação é dada a pessoas, e isso será exercido independentemente onde elas estiverem inseridas. Isso vai contra a ideia de “para onde Deus me chamou”. Na realidade Ele nos chamou para exercer nossos dons onde estivermos. Vocação é o que fazemos e não         onde iremos.  O artesão não será artesão por estar em local especifico. Ele é artesão. Os pastores serão pastores independentemente onde estejam, são pastores. Os mestres ensinarão a palavra onde quer que estejam, são mestres.
Quando você for chamado por Deus para um ministério não fique aflito qual local irá exercê-lo, pode ser na praça do outro da sua casa, o Deus que te chamou te guiará para que Sua vontade seja plenamente cumprida.
Lembra-se somente disso, todos somos chamados e vocacionados para fazer algo no reino de Deus. Deus não nos chama para inutilidade ou uma vida sem propósitos. Conheça mais a Ele, dedique sua vida ao reino, coloque seus talentos a serviço do Rei, Ele te usará.









[4] LINDÓRIO, Ronaldo; Vocacionados. Editora Betânia, 2014, p9. 

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

A POBREZA E A BÍBLIA - ANTIGO TESTAMENTO




                                     A POBREZA E A BÍBLIA - ANTIGO TESTAMENTO


"Aquele que tapa os seus ouvidos ao clamor do pobre, também clamará, e não será ouvido.”  Provérbios  
            

A pobreza e a sua definição é complexa. Descrever a pobreza numa ótica bíblica não é uma tarefa fácil para o teólogo cristão protestante do presente século, afinal estamos em uma era de certezas teológicas rasas onde a maioria dos cristãos apregoa sobre uma vida abundante na terra. A cosmovisão de muitos protestantes hoje, alicerçada na teologia da prosperidade[1], aliada ao capitalismo selvagem e ao egocentrismo humano torna a questão desinteressante para alguns, afinal o capitalismo, de acordo com o pensamento de muitos, torna livre o homem, para que este alcance classes sociais mais altas, e o fato de alguns serem pobres se deve ao fato de não se esforçarem o suficiente para saírem de suas condições sociais.
Além da visão hodierna distorcida de alguns denominados protestantes, temos a questão teológica do termo pobreza em si, que pode ser entendido de diversas maneiras, como Barth (1986) assevera, pessoas socialmente privilegiadas podem ser pobres: na saúde, intelectualmente, espiritualmente e nos seus relacionamentos, em contrapartida uma pessoa pobre no sentido financeiro pode ser rica nesses outros sentidos[2].
Mas afinal quem são os pobres de acordo com a bíblia, haja vista a tendência de alegorizar a interpretação da palavra pobre. O sentido bíblico não deve ser entendido somente numa conotação socioeconômica, pois o pobre, biblicamente falando pode ser uma disposição interior ou atitude da alma[3] (cf. MATEUS 5.3 ARC), porém a interpretação do termo pobre não deve ser limitada a esse tipo de entendimento, pois, a pobreza socioeconômica é uma cruel realidade que não podemos fingir que não exista.
Em pesquisa aos vocábulos ligados à palavra pobre e pobreza percebemos que a bíblia fala mais sobre o assunto em questão do que outras doutrinas tão enfatizadas e ensinadas nas igrejas protestantes hodiernas. São quase cento e setenta citações diretas dos vocábulos estudados nesse item. A igreja precisa se preocupar com a essa questão, afinal Deus se preocupa, pelo menos, é o que fica subentendido pelas pesquisas dos trechos bíblicos.
 O termo no hebraico mostra as seguintes definições: aniy (yne) usada mais de trinta vezes com sentido de homem rebaixado e aflito, tem o sentido de pobreza como consequência de opressão politica, religiosa e psicológica esse termo aparece em Isaías 3.14, ebyown (Nwyba) que tem o mesmo significado de mendigo, pedinte, não saciado, carente, necessitado, referente à classe social mais baixa, essas pessoas não conseguem se tornarem independentes de outros devido suas necessidades não supridas. O outro termo é ruwsh (vwr) que significa aquele que se torna pobre por outrem, ser pobre, ter falta de, tem o sentido de pessoas empobrecidas por ações de injustiças.  Há, também, o termo dal (ld) traz o sentido de inferior, pobre, fraco, magro, pessoa inferior (cf. Amós 5.11). Tem o sentido de algo que está pendurado por um fio.  E por ultimo os termos ra‘eb (ber), faminto, de vigor combalido, aquele que não tem o que comer e chelaka (hklx), miserável, pobre, pessoa infeliz, desafortunado citado em Salmos 10.4.[4]
 A base bíblica veterotestamentária de nossa argumentação para que a pobreza, e os que sofrem com ela, seja um alvo a ser trabalhado pela igreja atual começa em Gênesis, onde Deus cria todas as coisas. Inicialmente toda obra criatória divina é considerada agradável, boa, amável (é o que se entende pelo adjetivo hebraico bom, “towb”, citado em Gênesis 1.31). A criação era perfeita e bela. Em meio à narrativa bíblica da criação, aparece à criação do ser humano, que é narrada com um grau de importância sublime, a formação dessa criatura se dá com um concilio divino, em Gênesis 1.26 é declarado: “façamos o homem a nossa imagem e semelhança” (GRIFO NOSSO), e assim o fez do “pó da terra”. O nome dado ao homem, Adão, vem do hebraico “Adam” que tem a mesma raiz da palavra “Adamah”, que significa terra, analisando a criação do homem a partir da terra pode-se concluir que o homem e a terra são parte integrantes. No Congresso Brasileiro de Evangelização foi dito:
O homem e a terra não entidades separadas. Eles têm uma serie de importantes relacionamentos e interdepências (...). Quaisquer dificuldades ou problemas que houver com a terra se refletirá no homem. Explode-se a terra e teremos o fim da raça humana. Polui-se a terra e se prejudica a vida na face da terra [5].
Após a criação da terra e do ser humano, Deus entrega a terra às mãos do homem para administra-la e prover seu sustento. Até aqui o homem não sabia o que era poluição, queimadas, destruição, fome, desigualdade, discriminação, exclusão e injustiças e só passa conhecer esses problemas após ter cometido o pecado. O projeto inicial de Deus era formação de uma sociedade igualitária, mas, de acordo com entendimento formado a partir do velho testamento as desigualdades começa a existir após a queda do homem, Cavalcanti (1987) disse:
A tremenda verdade é que, se o homem não houvesse pecado, ele iria vivenciar  plenamente este projeto de Deus em suas relações sociais; projeto esse em que nada de negativo que vemos acontecer através da historia, até nossos dias, teria talvez: tanto em relação à expressão cultural de civilização, como relação à questão social e econômica [6].
 Diferentemente de Rousseau (1975) [7], que acreditava que as desigualdades entre os homens têm como base a noção de propriedade privada e a necessidade de um superar o outro, numa busca constante de poder e riquezas, para subjugar os seus semelhantes, para o cristianismo as desigualdades está correlacionada com o pecado do primeiro homem, Adão.
 O principal argumento veterotestamentário para o combate da pobreza é o fato de Deus ter criado o homem a sua imagem e semelhança. Essa imagem do divino mostra que esse ser está ligado ao Criador e é por essa ligação que o ser humano passa a ser “dignamente superior às outras criaturas” [8]. Esse pensamento antropológico-teológico foi bem desenvolvido por Tertuliano, que acreditava na objetividade da existência humana, que dizia que o ser humano foi modelado pelo próprio Deus, uma obra maravilhosa que recebera a liberdade. Segundo ele, Deus se dedicou totalmente a substância que depois de trabalhada com amor surge o homem[9]. Dentro dessa perspectiva, começamos a entender a dignidade humana que, em suma, não deve ser reduzida a nem um tipo de degradação, seja ela qual for, inclusive a pobreza.
Por outro lado existe também o argumento de que Deus criou a terra e a colocou a disposição do gênero humano, para que este a dominasse com trabalho e sobrevivesse dos seus frutos. No livro das Origens é relatado que todas as aves, peixes, animais terrestres deveriam ser dominados pelo homem e os frutos, sementes, ervas serviriam de mantimento[10]. A disposição do criador em entregar os frutos e animais para o homem leva-nos a afirmação que os bens criados devem ser destinados a todos, sem que haja exclusões em detrimento da vontade egocêntrica de uma minoria dominante. No Compêndio da Doutrina Social da Igreja, que cita o Vaticano II[11], encontramos o desenvolvimento dessa afirmativa, onde é declarado o sentido universal dos bens. Essa afirmativa não implica que tudo pertença a todos, mas que fique assegurado o exercício justo da distribuição dos bens para que todos usufruam e tenha as condições de uma vida sem indignidade.
No livro de Deuteronômio, especificamente no capitulo 15 e verso 11 fica patente que a existência de pobres era contínua dentro da sociedade hebreia, mas mesmo com essa afirmativa fica visível a vontade do Divino quando se é ordenado: “... para que entre ti não haja pobre...” (DEUTERONÔMIO 15.4 ARC). A vontade divina não pode ser entendida com uma promessa a ser cumprida por ele, mas uma ordenança a ser seguida pelo homem. O ser humano tem uma gama de possibilidades de realizar-se consigo e com os outros, portanto fica plausível que a diretiva divina é que aquele crie realidades para que não haja nem um tipo de exclusão. 
Existiam leis que protegiam e davam auxilio aos pobres, mas adiante, no item 3.2 trataremos especificando as figuras da exclusão na antiguidade (órfãos, estrangeiros, viúvas, etc.) e o que o antigo e novo testamento diz a respeito. Mas salientamos que nas relações sociais com o pobre eram vetados os maus tratos ou opressão (DEUTERONÔMIO 24.14), a usura (ÊXODO 22.25) e a injustiça (LEVÍTICO 19.15). Nos cultos religiosos, o pobre não podia ser excluído por não ter condições de ofertar sacrifícios, mas havia determinadas ofertas que se enquadrariam de acordo com as posses do ofertante, quanto menores fossem suas posses, menor seriam os animais sacrificados, ou ofertas entregues aos sacerdotes.
 A mais profunda ideia social ante a pobreza pode ser analisada a partir de Levítico 19.18, “amarás o teu próximo como a ti mesmo”. Esse imperativo, expressa o mais alto ideal para a convivência do ser humano, é a ideia da responsabilidade pelo outro e isso não é uma opção, mas uma ordem que deve ser parte continua da vida do homem, enquanto gênero. A prática dessa ordem não deve ser visada com meio de obtenção de reconhecimentos, isso deve ser entendido como uma única maneira de viver.  Amar ao próximo como a si mesmo eis o desafio de Deus para com o Seu povo. A sociedade hebreia que estava em formação no deserto, deveria ser formada a partir desse principio, esse deveria ser o norteamento de toda relação social. As leis deveriam ser justas, o governo deveria ser administrado com equidade, às negociações deveriam ser praticas com ética e justiça. Tudo visando o bem estar do outro. Pensando dessa forma não poderia haver praticas trabalhistas escravagistas, abandono, subjugação pelo poder, etc.
Durante período deuteronômico surge um dos primeiros sistemas fiscais que se tem conhecimento, o dízimo. A decima parte de tudo que era produzido por todos eram destinado ao sustento dos sacerdotes, viúvas, órfãos e estrangeiros. De acordo com os textos de Deuteronômio 26.12,13 e 14.28,29 mostra que os dízimos arrecadados serviriam para auxiliar os pobres.
Os livros históricos do antigo testamento registram o inicio da nova terra prometida por Deus à Israel. No inicio entendemos que não havia desigualdade e pobreza, a terra conquistada havia sido distribuída de maneira igual entre as tribos, e estas redistribuíram de maneira igual entre as famílias. Porém com o tempo àqueles que foram escravos no Egito, passam a oprimir e escravizar seus irmãos na nova terra. O modelo patriarcal que trazia uma sociedade mais justa que vivia segundo os mandamentos do Deus de Israel, foi substituído pela monarquia. No livro do profeta Samuel fica registrado as consequências que esse novo tipo de sociedade traria a vida da nação, os filhos serviriam de servos para construir armas, guerrear e trabalhar nas lavouras, de tudo que fosse produzido o melhor seria direcionado para o rei e seus servos, os dízimos que serviam para os pobres passam a ser entregue aos oficiais da monarquia e as filhas serviriam ao rei como padeiras, perfumistas, cozinheiras. A monarquia fixada dava direito ao rei e seus oficiais a usufruírem dos bens produzidos pela nação explorando como se achasse conveniente. (1SAMUEL 8.10-20)
Os autores dos sapienciais bíblicos falam da questão da pobreza em vários trechos. O livro de Jó elenca o fato de Deus proteger e ouvir os pobres em detrimento dos feitos perversos dos ímpios. Podemos encontrar declarações como: “[os ímpios], assim, fizeram que o clamor do pobre subisse até Deus, e este ouviu o lamento dos aflitos” (JÓ 34.28) e “quanto menos àquele que não faz acepção das pessoas de príncipes, nem estima ao rico mais do que ao pobre; porque todos são obras de suas mãos”. (JÓ 34.19). Ainda no mesmo livro existem denuncias de pobres sem socorro, desamparados e que tem seus direitos negados[12].


Jó.

Nos salmos 10 existe um clamor pelo auxilio ao pobre, o autor clama a Deus, pois, os ímpios perseguem o pobre e os necessitados são destruídos. Diante desse sofrimento o salmista clama: “Levanta-te, SENHOR! Ó Deus, ergue a mão! Não te esqueças dos pobres.” (SALMOS 10.12 ARA) e mais adiante, nos Salmos 12.5, Deus diz: “Por causa da opressão dos pobres e do gemido dos necessitados, eu me levantarei agora, diz o SENHOR; e porei a salvo a quem por isso suspira”. Os salmos mostram Deus como àquele que não fica passivo ante ao clamor do pobre, podemos averiguar isso em uma rápida leitura nos trechos 132.15, 109.31 e 12.5.
Agora vejamos o que ensina os Provérbios do velho testamento. Os textos 14.31 e 17.5 ensinam que os que oprimem ao pobre insultam ao criador. Mais uma vez o antigo testamento lembra que o homem foi criado a partir de Deus, e este não permite que aquele sofra com as desigualdades impostas pelo poder de outro. O livro de Provérbios ensina, ainda, nos trechos 22.9 e 14.21, que aqueles que se compadecem do necessitado serão abençoados ao passo que os que não cuidam dos pobres serão amaldiçoados (PROVÉRBIOS 22.16 E 28.17). Há também uma alusão muito interessante aos pobres que vivem nessas condições por serem preguiçosos, a primeira parte do capitulo 6 e trechos do capitulo 23 e 28 desse livro  trata justamente disso. A passagem de implicação forte nesse livro é a que se segue: “Aquele que tapa os seus ouvidos ao clamor do pobre, também clamará, e não será ouvido.” (PROVÉRBIOS 21.13, TB)
 A pobreza, que de acordo com os preceitos deuteronômicos não poderiam fazer parte da sociedade hebreia, sociedade esta que serviria de modelo, é enfaticamente denunciada pelos profetas. Isaías revela que Deus começa a julgar os anciãos e seus lideres por causa total desprezo pelos pobres, ele ainda fala de homens que fraudavam os desvalidos e legisladores que criavam leis injustas que reprimiam o direito dos pobres[13]. Mostra, também, no trecho 5.8 homens que juntam propriedades e não deixam espaços para os pobres terem suas moradias. Esse profeta revela, ainda, que o Messias prometido traria um reinado de justiça, uma leitura nos trechos 11.4, 29.19 evidencia o que afirmamos. Por fim existe a promessa em Isaías 32.7 de serem agraciados todos aqueles que acolhessem os desamparados e mais adiante Deus revela claramente sua vontade no capítulo 58 onde lemos:
Porventura, não é este o jejum que escolhi: que soltes as ligaduras da impiedade desfaça as ataduras da servidão, deixes livres os oprimidos e despedaces todo jugo? Porventura, não é também que repartas o teu pão com o faminto, e recolhas em casa os pobres desabrigados, e, se vires o nu, o cubras, e não te escondas do teu semelhante? (VERS. 6,7)
Ezequiel 18 é apresentado uma lista de características de um homem justo, dentre essas características é citado a ajuda ao pobre. As denuncias feitas pelo profeta mostra que Israel tornou-se tão perverso quanto à cidade de Sodoma. O pecado de Sodoma era não cuidarem dos pobres. Em Ezequiel 16.49 encontramos o seguinte:         
Tão certo como eu vivo, diz o SENHOR Deus, não fez Sodoma, tua irmã, ela e suas filhas, como tu fizeste, e também tuas filhas. Eis que esta foi a iniquidade de Sodoma, tua irmã: soberba, fartura de pão e próspera tranquilidade teve ela e suas filhas; mas nunca amparou o pobre e o necessitado.(ARA)  
As acusações continuam com o profeta Jeremias, “sangue de pobres e inocentes” (JEREMIAS 2.34) estavam nas vestes da nação, o desprezo pelas leis causavam degradação social, desvio moral, desvio religioso, indiferentismo. O libelo de Amós se de ao fato de cobrança indevida de tributos aos pobres, que tiravam do mantimento, “trigo”, para sustentar corruptos que com opulência extorquiam os pobres. (cf. AMÓS 5.11), o castigo estava próximo de Israel, pois eles continuamente exploravam o pobre (AMÓS 2.6). Amós continua com a acusação contra Israel mostrando homens que controlavam dolosamente            a distribuição de alimentos enganando o povo e se aproveitando das condições de pobreza de alguns, reduzindo a escravidão homens e mulheres, diz o texto:
                                     Quem dera que a Festa da Lua Nova já tivesse terminado para que pudéssemos voltar a vender os cereais! Como seria bom se o sábado já tivesse passado! Aí começaríamos a vender trigo de novo, cobrando preços bem altos, usando pesos e medidas falsos e vendendo trigo que não presta. Os pobres não terão dinheiro para pagar as suas dívidas, nem mesmo os que tomaram dinheiro emprestado para comprar um par de sandálias. Assim eles se venderão a nós e serão nossos escravos! (AMÓS 8.5-6, NTLH)
O capitulo três do livro do profeta Malaquias, usado comumente nos discursos religiosos, de evangélicos protestantes, hoje a respeito do dizimo, Deus se mostra mais uma vez julgando o povo de Israel. O motivo? Desvio de conduta moral e religiosa, opressão e falta de auxilio aos necessitados. O versículo 10 desse capítulo Deus ordena que os dízimos sejam entregues para que haja mantimento, alimentos, que eram empregados ao sustento não só de sacerdotes e levitas, mas para os necessitados como viúvas, órfãos e estrangeiros, pois era o que a lei determinava e pode ser conferido em Deuteronômio 14.28,29 e 26.12,13.
Reitero o que foi dito no inicio desse texto: A igreja precisa se preocupar com a essa questão, afinal Deus se preocupa, pelo menos, é o que fica subentendido pelas pesquisas dos trechos bíblicos estudados até aqui.


Cada dia a natureza produz o suficiente para nossa carência. Se cada um tomasse o que lhe fosse necessário, não havia pobreza no mundo e ninguém morreria de fome.
Mahatma Gandhi

- Oaidson B Silva



[1]  Movimento religioso surgido nos Estados Unidos da América, que interpreta alguns trechos da bíblia dizendo que aqueles que são fiéis a Deus devem desfrutar de uma excelente situação na área financeira,  da saúde,  emocional, social, familiar, etc. (FONTE:HTTP://PT.WIKIPEDIA.ORG/WIKI/TEOLOGIA_DA_PROSPERIDADE  ; ACESSADO EM 13/09/12).
[2] BARTH. Pobreza em Dadiva e Louvor. São Leopoldo: Sinodal, 1986, p.351.
[3] QUEIROZ, Carlos Pinheiro. Eles herdarão a terra. Curitiba: Encontro, 1998, p.19.
[4] HARRIS, R. Laind. Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento, Trad. Gordon Chown, Edições Vida Nova, 1985. (todos os termos para o vocábulo “pobre”).
[5] YUASSA, Key. “O Homem Brasileiro como Objeto do Amor de Deus”, em a Evangelização do Brasil: Uma tarefa inacabada, onde estão contidas as palestras proferidas por vários autores no Congresso Brasileiro de Evangelização em Belo Horizonte – MG – 1983, São Paulo: Ed. ABU. , 1985, pp. 84 e 86.
[6] CAVALCANTI, Robinson. Igreja: Agencia de Transformação Histórica. VINDE e SEPAI, 1987, p12.
[7] Jean Jaques Rousseau em seu celebre discurso sobre A origem da desigualdade entre os homens e se ela é autorizada pela lei natural em 1753, como reposta a questão proposta pela academia de Dijon, disponível em www.livros_gratis/origem_desigualdades.html.
[8] COBERLLINI, Vital. Referências Patrísticas quanto aos Princípios da Doutrina Social da Igreja. Artigo publicado pela PUC
[9] TERTULLIANO. La Resurrezione dei morti, VII, 3-4. Traduzione, Introduzione e Note a cura, C.MICAELLI, Roma: Città Nuova Editrice, 1990.

[10] Gênesis 1.28,29
[11] Alusão aos documentos provenientes do Concilio Vaticano II, ocorrido de 1962 a 1965.
[12] Cf. Jó 20.19; 24.4; 24.9; 31.16.
[13] Cf. Isaías 3.10,11. 15; 10.1, 2; 32.7