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quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

A POBREZA E A BÍBLIA - NOVO TESTAMENTO

O Espírito do Senhor está sobre mim, pelo que me ungiu para evangelizar os pobres; enviou-me para proclamar libertação aos cativos e restauração da vista aos cegos, para pôr em liberdade os oprimidos, e apregoar o ano aceitável do Senhor.
Jesus Cristo
     
  O novo testamento não difere do antigo testamento em vários aspectos. Algumas leis e vários costumes foram, no novo testamento, abolidos, mas a responsabilidade social ante a pobreza e os efeitos colaterais causados por ela são lembrados a todo instante. Quando permeamos os evangelhos, o livro histórico neotestamentário, as cartas paulinas, as cartas universais e o livro da revelação (APOCALIPSE) fica evidente o que afirmamos acima.
             Olhando para a língua em que foi escrito o novo testamento (grego) encontramos os seguintes termos para pobre e pobreza: penichros (penicrov) significando pobre e necessitado, ptochos (ptwcov) que traz o sentido de aquele que foi reduzido à pobreza, mendicância, pedinte, desamparado, indigente, destituído de cultura intelectual que as escolas propiciam, penes (penhv) somente pobre e husterematos (husterematov) que significa pobreza, falta ou deficiência daquilo que se precisa, necessidade. Todos esses termos são aplicados de maneira objetiva no novo testamento, mostrando que a pobreza jamais é esquecida por Deus.
            A pregação do evangelho não veio somente para os socialmente privilegiados, o evangelho não era uma ferramenta de libertação politica da escravidão vivida pelos judeus como consequência da opressão romana que dominava o mundo de então, mas, Jesus, no evangelho de Lucas 7.18-22, mostrara que sua missão, e uma das provas que ele de fato era o Messias prometido, se devia ao fato de que o evangelho estava sendo pregado aos pobres. Os socialmente desfavorecidos não são esquecidos nas paginas do novo testamento, por isso a igreja ou aqueles que se chamam cristãos não podem esquecê-los, e é justamente este o proposito de nossa fundamentação teórica desse item formado a partir do novo testamento.
              O novo testamento trata da pessoa central e mais importante para o cristianismo, Jesus Cristo. Os seus ensinos e os efeitos desses ensinos que foram registrados servem de modelo para a igreja cristã do século XXI. O próprio Jesus em suas palavras registradas no evangelho de João (20.21) se coloca como modelo a ser seguido, os apóstolos imita a Cristo e incentivam os cristãos a fazê-lo também: “Sede meus imitadores, como também eu sou de Cristo.” (1CORINTIOS 11.1). A incontestável verdade é que sem a pessoa de Cristo e de seus ensinos não há cristianismo.
            Jesus era pobre. Os evangelhos registram o nascimento de Jesus em uma família socialmente pobre. Maria e José não têm títulos e nem influência. A afirmativa de que eles eram pobres esta registrada em Lucas 2.23-24 (você pode comparar com Levítico 12.8), onde durante a consagração de Jesus eles levam um casal de pombos, mostrando a falta de condições de oferecer um sacrifício de um animal maior, um cordeiro por exemplo. Jesus nasceu numa manjedoura, não num palácio, como acreditavam alguns em sua época.
             A cidade natal de Jesus, Belém, talvez nunca tivesse a notoriedade que tem hoje se ele não tivesse nascido lá. A infância e adolescência de Cristo foram vividas em outra cidade subdesenvolvida, a cidade de Nazaré, mais tarde um homem chamado Natanael duvida de Jesus quando toma conhecimento de sua cidade: “De Nazaré pode sair alguma coisa boa?” (JOÃO 1.46). A entrada de Jesus em jumentinho narrada no evangelho de Mateus 21.1-16, mostra o estilo que ele trazia consigo. Carlos Queiroz (1998) diz que Cristo era um tipo de rei que afrontava os modelos estratificados da sociedade. A profissão de seu pai, carpinteiro, revela outra parte da realidade social vivida por Jesus. Durante seu ministério dependeu de um grupo de mulheres que o sustentava e não possuía um lar (Lucas 8.2 e 9.58).
            Os judeus de seu tempo atribuía a pobreza uma espécie de maldição divina e a riqueza como evidência da benção do divino. O estilo de vida de Cristo contradiz esse paradigma judeu, afinal Cristo vive sem pecados e mesmo assim assume uma condição de pobreza.  Porém, a pobreza não deve ser encarada, biblicamente, como uma virtude, mas, como um mal a ser eliminado e com o qual Deus mostra profunda preocupação.   
            A missão de Cristo é afirmada por ele quando, citando Isaías 61.1-2, diz:
O Espírito do Senhor está sobre mim, pelo que me ungiu para evangelizar os pobres; enviou-me para proclamar libertação aos cativos e restauração da vista aos cegos, para pôr em liberdade os oprimidos, e apregoar o ano aceitável do Senhor.
            Note que o texto diz claramente que uma das prerrogativas ministeriais de Cristo era a anunciação do evangelho aos pobres. Isso também foi confirmado quando Cristo afirma a João Batista que em Lucas 7.22 que “aos pobres é anunciado o evangelho”. Os discípulos escolhidos por Jesus eram   pobres. O estilo de vida de Jesus e a escolha de seus discípulos coadunam com o ensino registrado em Tiago 2.5: “Ouvi, meus amados irmãos. Não escolheu Deus os que para o mundo são pobres, para serem ricos em fé e herdeiros do reino que ele prometeu aos que o amam?”. 
             Ele conviveu com pecadores e publicanos, acolheu pobres, libertou prostitutas, curou aqueles que viviam as margens da sociedade, ensinou a estrangeiros discriminados pelo seu povo, como o caso da mulher samaritana (JOÃO 4.1-30). Até em sua morte podemos ver seu estilo de vida, ele não tinha um tumulo para ser sepultado, e só o teve pela generosidade de um homem rico chamado José de Arimatéia. Isso nos remete ao que o apóstolo Paulo escreveu em 2 CORÍNTIOS 8.9 : “pois conheceis a graça de nosso Senhor Jesus Cristo, que, sendo rico, se fez pobre por amor de vós, para que, pela sua pobreza, vos tornásseis ricos.”
            Houve dois homens ricos que foram ao encontro de Jesus, o primeiro um jovem riquíssimo que ouviu que deveria vender tudo o que tinha e dar aos pobres e depois seguir a Cristo (LUCAS 18.22,23), mas não conseguiu faze-lo. No celebre sermão do monte Jesus fala que não se pode servir a Deus e as riquezas (MATEUS 6.24), as riquezas para o cristão, e de acordo com ensino de Cristo, deve estar a favor dos homens e nunca contra os homens, ela deve ajudar e não separar, o desprendimento em relação à riqueza e aos bens materiais é necessário para que haja justiça, e essa justiça deve ser praticada por aqueles que querem seguir a Cristo.
            Em outros textos, Jesus da à mesma ênfase que foi dada ao jovem rico, Lucas 12.33 e 14.33 indicam que a riqueza não pode ser um empecilho, um óbice, para aqueles que querem se tornar discípulos de Cristo. Outro pensamento extraído destes textos é que as riquezas não devem servir de bens para desfrute de pequenas massas egoístas, mas devem servir de bem comum à humanidade, suprindo a necessidade de todos igualmente.
            A visão de posses de acordo com o pensamento de Cristo difere dos padrões vividos por muitos cristãos de hoje.  O segundo homem foi Zaqueu, que trabalhava na cobrança de impostos, após encontrar-se com Jesus decide doar metade de seus bens aos pobres. A atitude de Zaqueu leva a declaração de Cristo “hoje veio salvação a esta casa”, ao que o texto denota o sinal de conversão foi o desprendimento em doar, em ajudar.
          No evangelho de Mateus 25. 35-45 Jesus afirma que um dos critérios usados por Deus no julgamento, se dará com base nas atitudes do homem em relação ao socialmente desfavorecidos. A atitude correta, de acordo com esse trecho, é saciar a sede dos sedentos, saciar a fome dos famintos, vestir os que estão nus, dar abrigo aos estrangeiros, prestar auxilio aos enfermos e encarcerados. Em suma Jesus Cristo se fez pobre, pregou aos pobres, se dou aos pobres e ensinou a atitude correta que devemos ter diante dos pobres.
          Os pobres foram alvo das mensagens de Cristo veja o que evangelista Lucas registrou: “então, olhando ele para os seus discípulos, disse-lhes: Bem-aventurados vós, os pobres, porque vosso é o reino de Deus” (LUCAS 6.20). Não podemos negar o cuidado de Cristo para com o pobre, mas e a igreja? Será que em seus primórdios houve a mesma compaixão, a mesma visão? Os continuadores da propagação do evangelho levaram a mesma mensagem de amor ao próximo e cuidado aos desfavorecidos? Indubitavelmente, podemos afirmar que a igreja primitiva[1] e os discípulos de Cristo continuaram o legado de amor, respeito e ajuda aos pobres.
            Continuamos nossa pesquisa através dos livros neotestamentários. O livro histórico do novo testamento, Atos dos apóstolos ou simplesmente Atos, trata da formação da igreja e da continuidade da pregação da mensagem de Cristo pelos seus discípulos. Em meio a perseguições e acontecimentos surpreendentes a igreja cristã começa a ser formada. O inicio da igreja é marcado por um profundo zelo pela pureza da mensagem cristã, pela tarefa árdua de anunciação dessa mensagem e pela prática incansável e indelével da igreja para aplicar a mensagem de Cristo integralmente.   
            Os textos de Atos 2.42-45 e 4.32-35 mostra o modo de como os primeiros cristãos viviam. A visão do bem comum, onde todos os bens pertenciam a todos, era aplicada, os primeiros cristãos não visavam individualmente suas propriedades, mas os bens pertenciam a generalidade, é o que o adjetivo grego para comum koinos (koinov), que aparece no verso 44, exprime. O trecho de 4.32-35 revela um tipo de sentimento que havia entre os neófitos e os cristãos de fé arraigada, havia unanimidade, os bens deveriam servir a todos, eles dividiam uns com os outros tudo que eles tinham, e o resultado desse tipo de sociedade é expresso no verso 34 e 35, onde fica visível a eliminação da pobreza:
“Não havia entre eles nenhum necessitado, pois todos os que tinham terras ou casas as vendiam, traziam o dinheiro e o entregavam aos apóstolos. E cada pessoa recebia uma parte, de acordo com a sua necessidade.” (NTLH).
            Ressaltamos que essa comunidade cristã não agia dessa forma por obrigação ou exigências impostos pelos apóstolos, como aconteceu com os essênios que repartiam seus bens por uma imposição legalista, mas simplesmente pela mensagem cristã que havia sido assimilada pelos novos conversos, o ensino de amor ao próximo finalmente é expresso na sua totalidade, afinal o desprendimento em favor do necessitado acontece, e qual maior prova de amor ao próximo se não a coragem de dividir e se doar a seu favor. Contudo a liberdade de escolha individual foi preservada como exposta em Atos 5.4. A vida na igreja primitiva valoriza o ser humano. Os bens, a propriedade privada, o desejo de acumulo de bens são trocados por uma vivencia real e concreta de uma comunhão ímpar. O mero ideal teórico de uma sociedade justa é experimentado, pelo menos por algum tempo, de forma real.  Esse não era um novo modelo de sociedade como assevera Boor (2003):
Os terrenos e as casas continuavam sendo propriedade inviolada de cada um. Mas ninguém se arvorava em seu direito de propriedade e defendia seu patrimônio. Aqui não se ensaiava um novo modelo social, nem se definia um novo conceito de propriedade. Aqui a posição interior era completamente nova. Essa atitude repercutia em todos, tanto naqueles que, como Maria, a mãe de João Marcos (At 12.12), conservou sua grande casa, a fim de torná-la útil de outro modo para os irmãos, e também naqueles que, como Barnabé, de fato venderam seu terreno. “Tudo lhes era comum”, ou como também poderíamos traduzir: Consideravam tudo como propriedade comum [2].
                       
            A preocupação era evidente na igreja, o amor ao próximo e o cuidado com os necessitados era uma faceta normal do discipulado cristão. Mas a jovem igreja começa a enfrentar problemas de cunho social, Atos 6.1-7 narra o começo de um favoritismo na distribuição de donativos que ocorria diariamente no seio da igreja. Os helenistas[3] estavam sendo esquecidos e os hebreus favorecidos. A narrativa mostra que os apóstolos convocaram uma reunião com um fim específico, a resolução deveria ser pronta e não poderia continuar com favoritismo e que os necessitados pudessem ser atendidos em suas necessidades igualmente. O mal estar foi resolvido, eles elegeram sete homens que ficaram responsáveis de administrar o fundo dos bens, garantir equidade na distribuição de alimentos para os empobrecidos. Esses homens ficaram conhecidos como diáconos, pessoas que, em virtude do ofício designado a ele pela igreja, cuida dos pobres e tem o dever de distribuir o dinheiro coletado para uso deles.
            Fica patente que mesmo em meio a problemas surgidos na igreja primitiva, os pobres não deveriam ficar em esquecimento. A função diaconal empregada em alguns núcleos religiosos no seio protestante, em nada se assemelha com o papel desempenhado pelos primeiros diáconos. A diaconia serve, biblicamente, como um órgão estruturado e ativo na ajuda aos pobres, dentro da igreja. Cabe ao diácono identificar, apontar, levantar fundos e ajudar os necessitados, fazendo isso estará “servindo a mesa” como foi instruído pelos apóstolos de Cristo. Destacamos o verso 3 do capitulo 6, os discípulos atribuem a essa função um papel importantíssimo o chamam de “...sobre este importante negócio.” (ARC)
            Há um exemplo impressionante do livro Atos 9.36 onde é lembrada uma mulher cristã chamada Tabita, a bíblia expõe que essa mulher “... usava todo o seu tempo fazendo o bem e ajudando os pobres...”, ao que o texto traz, tinha uma grande admiração por parte das viúvas. Já o capitulo 10 fala de um homem piedoso chamado Cornélio, oficial do exercito romano, que continuamente ajudava aos social e se antecipava e se apressava em ajudar, um profeta chamado Ágabo previu uma grande fome, diante disso a igreja de Antioquia, ao invés de pensarem em si, se uniu para enviar socorro aos irmãos que moravam na Judeia. 
            O livro de Atos traz mais um princípio muito interessante, o de “dar é melhor que receber” (ATOS 20.35), o apóstolo Paulo registra nesse trecho que Cristo havia dito e diante disso se fazia necessário socorrer os necessitados. O verbo grego utilizado nesse trecho (didwmi) tem o sentido de suprir, dar lago de livre e espontânea vontade, ser profuso, ter prodigalidade ou simplesmente doar-se. A entrega sem espera de retorno contradiz os ditames das relações humanas. O auxilio aos necessitados é uma exigência divina e deve ser feito com esforço.  
            A igreja primitiva rompe as barreiras do nacionalismo, por mais que seus inauguradores fossem judeus, a igreja estaria aberta a todos. Não poderia haver favoritismo, os pobres não poderiam ser esquecidos, a mensagem cristã deveria ser preservada e as dificuldades existentes eram vencidas pela comunhão vivida por seus membros.
            O pensamento dos apóstolos descrito nas cartas ou epístolas também expressa o cuidado com os necessitados. O apóstolo Paulo, autor da maior parte das paginas neotestamentárias, por exemplo, revela um profundo amor e cuidado pelo próximo. Uma parte da teologia paulina que esta expressada em 1Coríntios 1.26,27,28  fala de como os padrões divino difere dos padrões humanos, a escolha divina começa com os desprezados, humildes, fracos. Para Paulo a pobreza não pode separar o homem do amor de Deus (ROMANOS 8.35 NTLH), o serviço que Deus exige do cristão inclui repartir e compartilhar as necessidades daqueles que estão padecendo (ROMANOS 12.13).
            O próprio apóstolo Paulo levou uma oferta doada por igrejas de algumas cidades, para os cristãos pobres que viviam em Jerusalém (cf. ROMANOS 15.25; 1CORÍNTIOS 16.1; 2CORÍNTIOS 8.1). No capitulo oito de 2coríntios Paulo de detém no ensino onde os cristãos devem prestar assistência aos pobres. Segundo ele deve haver boa vontade em ajudar (2 CORÍNTIOS 8.1-5) e que essa ajuda redunda em “muitas graças a Deus” (vers. 12). A liberalidade cristã é enfatizada nesse capitulo, a doação, que seria coletada, também serviria aos necessitados. Na carta escrita aos Gálatas, Paulo lembra que no inicio de seu ministério entre os gentios, num encontro com os apóstolos Tiago, Cefas e João, ouviu deles uma recomendação importante: “que nos lembrássemos dos pobres, o que também procurei fazer com diligência.” (GÁLATAS 2.10).
            Paulo, em Gálatas 3.28, lembra aos gálatas que em Cristo Jesus não existe discriminação social, pois todos são um. Paulo não nega a pluralidade humana advinda da criação, mas critica as condições sociais discriminatórias que surgiram. Os judeus determinavam suas ações apoiados em raça, gênero e condição social, já a relação estabelecida pelos cristãos pautada pelo amor não cria barreiras culturais ou socioeconômicas.
            De acordo com o trecho de Gálatas 6.10, a ajuda aos desfavorecidos não deve se concentrar somente aos partícipes da comunidade cristã, mas deve ir além do convívio religioso. Isso coaduna com o pensamento expresso por Paulo em Romanos 12.20, onde é dito: “Mas façam como dizem as Escrituras: Se o seu inimigo estiver com fome, dê comida a ele; se estiver com sede, dê água.”
            Na epístola escrita aos efésios (4.28), Paulo exorta aos cristãos viverem de maneira diferente, comparando a vida pré-cristã. O estilo de vida, passado e renovado pela fé, deve ser trocado por trabalho justo para que se tenha com o que ajudar ao necessitado. No seu comentário do texto em questão Eberhard Hahn diz:
Uma vez que a igreja cristã é corpo de Cristo, no qual o dar e o receber recíprocos vigoram por princípio, a “igualação” representa uma função central da vida comunitária: ela inclui participar da alegria ou tristeza (1CO 12.26), mas também compensar a carência de uns com a abundância de outros! Nessa busca de igualdade o olhar dirige-se inicialmente ao irmão, mas, além disso, leva em o necessitado em geral: “Façamos o bem a todos, mas         principalmente aos companheiros na fé” (Gl 6.10; cf. TT 3.14; 1JO 3.17) [4].

            O apóstolo Tiago ensina que o independentemente da condição social vivida pelo cristão, rico ou pobre, todos deve demonstrar gratidão a Deus. Os pobres têm motivos para se gloriarem, a sua dignidade, o rico, por outro lado, gloria-se na sua insignificância, lembrando que tudo é efêmero. Segundo Grünzweig o trecho de Tiago 1.9-10 deve ser interpretado da seguinte forma:
Isso coloca no mesmo nível os membros da igreja socialmente diferentes e os posiciona muito perto uns dos outros. A pobreza não humilha a riqueza não exalta. Quando a questão da riqueza não parece mais tão terrivelmente importante, estão asseguradas também as premissas para a harmonização social[5].
            No pensamento de Tiago o culto cristão a Deus deve ser mais profundo que o simples rito e cerimonia. No texto de 1.27 fica claro que a pura e verdadeira religião consiste em ajudar aos órfãos e viúvas nas suas aflições e não se contaminar com as coisas desse mundo. O cristão não deve se afastar do mundo, porém, tem o dever de se manter puro diante do mundo. Para o apóstolo Tiago isso é realmente possível, quando a mensagem cristã é colocada em pratica (cf. TIAGO 1.22) e essa pratica leva ao cumprimento da verdadeira religião.
            O trecho de 2.1-17, Tiago ensina a não fazer distinção entre pobres e ricos, dando honra aos ricos e desprezo aos pobres devido a sua condição social e sua aparência. E lembra que os pobres foram escolhidos por Deus para serem ricos na fé, esse pensamento lembra a teologia paulina expressa em 1Corintios 1.26-28 e o fato de Cristo anunciar o evangelho aos pobres descrito em Lucas 4.18. Ele lembra que o cristão deve amar os outros como a si mesmo, mais uma vez a lei régia e lembrada. Tiago continua exortando a pratica da fé, usa como exemplo pessoas carentes, que precisam de roupa e alimento, que podem e devem ser alvo da pratica cristã da fé através da ação. A fé cristã pode ser indiferente à condição do semelhante, antes expressa o amor divino em todas as dimensões.
             Para Tiago a riqueza de muitos está associada à opressão e exploração de trabalhadores (cf. 5.3-4) e muitos inocentes foram condenados ou mortos pelo desejo desenfreado e ganância de alguns. Devido a isso, este serão condenados por Deus.
            O apóstolo do amor, João, em sua primeira carta transparece que a vida real e essencial consiste no amor. Ele afirma que “Deus é amor” (1JOÃO 4.8) , que os cristãos são aperfeiçoados no amor (1JOÃO 2.5), que a prova de amor de Deus para o cristão é o fato deste ser chamado de filho de Deus (1JOÃO 3.1) e que Cristo deu sua vida pelo gênero humano (1JOÃO 3.16; 4.9,10). Ele continua ensinando que devemos amar uns aos outros (1JOÃO 4.7), que aqueles que não amam não podem conhecer a Deus (1JOÃO 4.8). A palavra amor e suas variações permeiam toda sua carta, aparece cerca de vinte seis vezes. No pensamento joanino a falta de amor implica no triste fato do ser humano estar morto (1JOÃO 3.15), e a prática de toda lei se resume no amor.
            João denota o amor que vincula a comunhão entre o ser humano e Deus e a relação entre o ser humano e seus semelhantes. Ele indaga sobre a pratica desse amor, e desafia para que o cristão expresse não somente de “palavras, mas de fato e verdade” (1JOÃO 3.18).
            Ele indaga ainda: “Se alguém é rico e vê o seu irmão passando necessidade, mas fecha o seu coração para essa pessoa, como pode afirmar que, de fato, ama a Deus?” (1JOÃO 3.17). O fato de alguém padecer necessidade e ser suprido por aquele que vive abastado parece óbvio nessa declaração. A necessidade material do próximo deve ser suprida pela disposição auxiliadora advinda do amor de Deus nos corações daqueles que são discípulos de Cristo.
             Terminando o novo testamento, precisamente no Apocalipse, encontramos diversas promessas que mostram o desejo divino para o ser humano. É prometido um novo reino sem dissonâncias sociais, a fome,  a sede, o sofrimento deixam de existir (APOCALIPSE 7.16-17), uma nova terra e um novo céu é criado, o projeto inicial do Genesis é alcançado, as promessas preditas pelos profetas veterotestamentários se cumprem. Cristo é o rei e nesse reino não haverá mais maldição, a morte, o luto, o pranto.
            A pobreza não é desprezada no novo testamento e aqueles que são denominados cristãos não podem ignora-la, e nem agir passivamente diante dessa realidade cruel. A pobreza não é somente um problema a ser tratado pelos governantes, isso fica claro pela nossa pesquisa nas paginas neotestamentárias.











[1] Igreja Primitiva – Alusão a formação histórica da igreja cristã, ocorrida no período de 30 d.C até a permissão da religião cristã pelo imperador romano Constantino e oficialização pelo imperador Teodósio. 
[2]  Boor, Werner de, Atos dos Apóstolos, Curitiba, Editora Evangélica Esperança, 2003, pg.49. 
[3] Os helenistas eram judeus advindos de países ocidentais, os quais haviam adquirido um pouco da cultura grega e falavam grego.
[4] Hahn, Eberhard, Cartas aos Efésios, Filipenses e Colossenses : Comentário Esperança. Curitiba, PR: Editora Evangélica Esperança, 2006, pg. 59.
[5] Grünzweig, Fritz , Cartas de Tiago, Pedro, João e Judas. Curitiba, PR : Editora Evangélica Esperança, 2008, pg.76.

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

A POBREZA E A BÍBLIA - ANTIGO TESTAMENTO




                                     A POBREZA E A BÍBLIA - ANTIGO TESTAMENTO


"Aquele que tapa os seus ouvidos ao clamor do pobre, também clamará, e não será ouvido.”  Provérbios  
            

A pobreza e a sua definição é complexa. Descrever a pobreza numa ótica bíblica não é uma tarefa fácil para o teólogo cristão protestante do presente século, afinal estamos em uma era de certezas teológicas rasas onde a maioria dos cristãos apregoa sobre uma vida abundante na terra. A cosmovisão de muitos protestantes hoje, alicerçada na teologia da prosperidade[1], aliada ao capitalismo selvagem e ao egocentrismo humano torna a questão desinteressante para alguns, afinal o capitalismo, de acordo com o pensamento de muitos, torna livre o homem, para que este alcance classes sociais mais altas, e o fato de alguns serem pobres se deve ao fato de não se esforçarem o suficiente para saírem de suas condições sociais.
Além da visão hodierna distorcida de alguns denominados protestantes, temos a questão teológica do termo pobreza em si, que pode ser entendido de diversas maneiras, como Barth (1986) assevera, pessoas socialmente privilegiadas podem ser pobres: na saúde, intelectualmente, espiritualmente e nos seus relacionamentos, em contrapartida uma pessoa pobre no sentido financeiro pode ser rica nesses outros sentidos[2].
Mas afinal quem são os pobres de acordo com a bíblia, haja vista a tendência de alegorizar a interpretação da palavra pobre. O sentido bíblico não deve ser entendido somente numa conotação socioeconômica, pois o pobre, biblicamente falando pode ser uma disposição interior ou atitude da alma[3] (cf. MATEUS 5.3 ARC), porém a interpretação do termo pobre não deve ser limitada a esse tipo de entendimento, pois, a pobreza socioeconômica é uma cruel realidade que não podemos fingir que não exista.
Em pesquisa aos vocábulos ligados à palavra pobre e pobreza percebemos que a bíblia fala mais sobre o assunto em questão do que outras doutrinas tão enfatizadas e ensinadas nas igrejas protestantes hodiernas. São quase cento e setenta citações diretas dos vocábulos estudados nesse item. A igreja precisa se preocupar com a essa questão, afinal Deus se preocupa, pelo menos, é o que fica subentendido pelas pesquisas dos trechos bíblicos.
 O termo no hebraico mostra as seguintes definições: aniy (yne) usada mais de trinta vezes com sentido de homem rebaixado e aflito, tem o sentido de pobreza como consequência de opressão politica, religiosa e psicológica esse termo aparece em Isaías 3.14, ebyown (Nwyba) que tem o mesmo significado de mendigo, pedinte, não saciado, carente, necessitado, referente à classe social mais baixa, essas pessoas não conseguem se tornarem independentes de outros devido suas necessidades não supridas. O outro termo é ruwsh (vwr) que significa aquele que se torna pobre por outrem, ser pobre, ter falta de, tem o sentido de pessoas empobrecidas por ações de injustiças.  Há, também, o termo dal (ld) traz o sentido de inferior, pobre, fraco, magro, pessoa inferior (cf. Amós 5.11). Tem o sentido de algo que está pendurado por um fio.  E por ultimo os termos ra‘eb (ber), faminto, de vigor combalido, aquele que não tem o que comer e chelaka (hklx), miserável, pobre, pessoa infeliz, desafortunado citado em Salmos 10.4.[4]
 A base bíblica veterotestamentária de nossa argumentação para que a pobreza, e os que sofrem com ela, seja um alvo a ser trabalhado pela igreja atual começa em Gênesis, onde Deus cria todas as coisas. Inicialmente toda obra criatória divina é considerada agradável, boa, amável (é o que se entende pelo adjetivo hebraico bom, “towb”, citado em Gênesis 1.31). A criação era perfeita e bela. Em meio à narrativa bíblica da criação, aparece à criação do ser humano, que é narrada com um grau de importância sublime, a formação dessa criatura se dá com um concilio divino, em Gênesis 1.26 é declarado: “façamos o homem a nossa imagem e semelhança” (GRIFO NOSSO), e assim o fez do “pó da terra”. O nome dado ao homem, Adão, vem do hebraico “Adam” que tem a mesma raiz da palavra “Adamah”, que significa terra, analisando a criação do homem a partir da terra pode-se concluir que o homem e a terra são parte integrantes. No Congresso Brasileiro de Evangelização foi dito:
O homem e a terra não entidades separadas. Eles têm uma serie de importantes relacionamentos e interdepências (...). Quaisquer dificuldades ou problemas que houver com a terra se refletirá no homem. Explode-se a terra e teremos o fim da raça humana. Polui-se a terra e se prejudica a vida na face da terra [5].
Após a criação da terra e do ser humano, Deus entrega a terra às mãos do homem para administra-la e prover seu sustento. Até aqui o homem não sabia o que era poluição, queimadas, destruição, fome, desigualdade, discriminação, exclusão e injustiças e só passa conhecer esses problemas após ter cometido o pecado. O projeto inicial de Deus era formação de uma sociedade igualitária, mas, de acordo com entendimento formado a partir do velho testamento as desigualdades começa a existir após a queda do homem, Cavalcanti (1987) disse:
A tremenda verdade é que, se o homem não houvesse pecado, ele iria vivenciar  plenamente este projeto de Deus em suas relações sociais; projeto esse em que nada de negativo que vemos acontecer através da historia, até nossos dias, teria talvez: tanto em relação à expressão cultural de civilização, como relação à questão social e econômica [6].
 Diferentemente de Rousseau (1975) [7], que acreditava que as desigualdades entre os homens têm como base a noção de propriedade privada e a necessidade de um superar o outro, numa busca constante de poder e riquezas, para subjugar os seus semelhantes, para o cristianismo as desigualdades está correlacionada com o pecado do primeiro homem, Adão.
 O principal argumento veterotestamentário para o combate da pobreza é o fato de Deus ter criado o homem a sua imagem e semelhança. Essa imagem do divino mostra que esse ser está ligado ao Criador e é por essa ligação que o ser humano passa a ser “dignamente superior às outras criaturas” [8]. Esse pensamento antropológico-teológico foi bem desenvolvido por Tertuliano, que acreditava na objetividade da existência humana, que dizia que o ser humano foi modelado pelo próprio Deus, uma obra maravilhosa que recebera a liberdade. Segundo ele, Deus se dedicou totalmente a substância que depois de trabalhada com amor surge o homem[9]. Dentro dessa perspectiva, começamos a entender a dignidade humana que, em suma, não deve ser reduzida a nem um tipo de degradação, seja ela qual for, inclusive a pobreza.
Por outro lado existe também o argumento de que Deus criou a terra e a colocou a disposição do gênero humano, para que este a dominasse com trabalho e sobrevivesse dos seus frutos. No livro das Origens é relatado que todas as aves, peixes, animais terrestres deveriam ser dominados pelo homem e os frutos, sementes, ervas serviriam de mantimento[10]. A disposição do criador em entregar os frutos e animais para o homem leva-nos a afirmação que os bens criados devem ser destinados a todos, sem que haja exclusões em detrimento da vontade egocêntrica de uma minoria dominante. No Compêndio da Doutrina Social da Igreja, que cita o Vaticano II[11], encontramos o desenvolvimento dessa afirmativa, onde é declarado o sentido universal dos bens. Essa afirmativa não implica que tudo pertença a todos, mas que fique assegurado o exercício justo da distribuição dos bens para que todos usufruam e tenha as condições de uma vida sem indignidade.
No livro de Deuteronômio, especificamente no capitulo 15 e verso 11 fica patente que a existência de pobres era contínua dentro da sociedade hebreia, mas mesmo com essa afirmativa fica visível a vontade do Divino quando se é ordenado: “... para que entre ti não haja pobre...” (DEUTERONÔMIO 15.4 ARC). A vontade divina não pode ser entendida com uma promessa a ser cumprida por ele, mas uma ordenança a ser seguida pelo homem. O ser humano tem uma gama de possibilidades de realizar-se consigo e com os outros, portanto fica plausível que a diretiva divina é que aquele crie realidades para que não haja nem um tipo de exclusão. 
Existiam leis que protegiam e davam auxilio aos pobres, mas adiante, no item 3.2 trataremos especificando as figuras da exclusão na antiguidade (órfãos, estrangeiros, viúvas, etc.) e o que o antigo e novo testamento diz a respeito. Mas salientamos que nas relações sociais com o pobre eram vetados os maus tratos ou opressão (DEUTERONÔMIO 24.14), a usura (ÊXODO 22.25) e a injustiça (LEVÍTICO 19.15). Nos cultos religiosos, o pobre não podia ser excluído por não ter condições de ofertar sacrifícios, mas havia determinadas ofertas que se enquadrariam de acordo com as posses do ofertante, quanto menores fossem suas posses, menor seriam os animais sacrificados, ou ofertas entregues aos sacerdotes.
 A mais profunda ideia social ante a pobreza pode ser analisada a partir de Levítico 19.18, “amarás o teu próximo como a ti mesmo”. Esse imperativo, expressa o mais alto ideal para a convivência do ser humano, é a ideia da responsabilidade pelo outro e isso não é uma opção, mas uma ordem que deve ser parte continua da vida do homem, enquanto gênero. A prática dessa ordem não deve ser visada com meio de obtenção de reconhecimentos, isso deve ser entendido como uma única maneira de viver.  Amar ao próximo como a si mesmo eis o desafio de Deus para com o Seu povo. A sociedade hebreia que estava em formação no deserto, deveria ser formada a partir desse principio, esse deveria ser o norteamento de toda relação social. As leis deveriam ser justas, o governo deveria ser administrado com equidade, às negociações deveriam ser praticas com ética e justiça. Tudo visando o bem estar do outro. Pensando dessa forma não poderia haver praticas trabalhistas escravagistas, abandono, subjugação pelo poder, etc.
Durante período deuteronômico surge um dos primeiros sistemas fiscais que se tem conhecimento, o dízimo. A decima parte de tudo que era produzido por todos eram destinado ao sustento dos sacerdotes, viúvas, órfãos e estrangeiros. De acordo com os textos de Deuteronômio 26.12,13 e 14.28,29 mostra que os dízimos arrecadados serviriam para auxiliar os pobres.
Os livros históricos do antigo testamento registram o inicio da nova terra prometida por Deus à Israel. No inicio entendemos que não havia desigualdade e pobreza, a terra conquistada havia sido distribuída de maneira igual entre as tribos, e estas redistribuíram de maneira igual entre as famílias. Porém com o tempo àqueles que foram escravos no Egito, passam a oprimir e escravizar seus irmãos na nova terra. O modelo patriarcal que trazia uma sociedade mais justa que vivia segundo os mandamentos do Deus de Israel, foi substituído pela monarquia. No livro do profeta Samuel fica registrado as consequências que esse novo tipo de sociedade traria a vida da nação, os filhos serviriam de servos para construir armas, guerrear e trabalhar nas lavouras, de tudo que fosse produzido o melhor seria direcionado para o rei e seus servos, os dízimos que serviam para os pobres passam a ser entregue aos oficiais da monarquia e as filhas serviriam ao rei como padeiras, perfumistas, cozinheiras. A monarquia fixada dava direito ao rei e seus oficiais a usufruírem dos bens produzidos pela nação explorando como se achasse conveniente. (1SAMUEL 8.10-20)
Os autores dos sapienciais bíblicos falam da questão da pobreza em vários trechos. O livro de Jó elenca o fato de Deus proteger e ouvir os pobres em detrimento dos feitos perversos dos ímpios. Podemos encontrar declarações como: “[os ímpios], assim, fizeram que o clamor do pobre subisse até Deus, e este ouviu o lamento dos aflitos” (JÓ 34.28) e “quanto menos àquele que não faz acepção das pessoas de príncipes, nem estima ao rico mais do que ao pobre; porque todos são obras de suas mãos”. (JÓ 34.19). Ainda no mesmo livro existem denuncias de pobres sem socorro, desamparados e que tem seus direitos negados[12].


Jó.

Nos salmos 10 existe um clamor pelo auxilio ao pobre, o autor clama a Deus, pois, os ímpios perseguem o pobre e os necessitados são destruídos. Diante desse sofrimento o salmista clama: “Levanta-te, SENHOR! Ó Deus, ergue a mão! Não te esqueças dos pobres.” (SALMOS 10.12 ARA) e mais adiante, nos Salmos 12.5, Deus diz: “Por causa da opressão dos pobres e do gemido dos necessitados, eu me levantarei agora, diz o SENHOR; e porei a salvo a quem por isso suspira”. Os salmos mostram Deus como àquele que não fica passivo ante ao clamor do pobre, podemos averiguar isso em uma rápida leitura nos trechos 132.15, 109.31 e 12.5.
Agora vejamos o que ensina os Provérbios do velho testamento. Os textos 14.31 e 17.5 ensinam que os que oprimem ao pobre insultam ao criador. Mais uma vez o antigo testamento lembra que o homem foi criado a partir de Deus, e este não permite que aquele sofra com as desigualdades impostas pelo poder de outro. O livro de Provérbios ensina, ainda, nos trechos 22.9 e 14.21, que aqueles que se compadecem do necessitado serão abençoados ao passo que os que não cuidam dos pobres serão amaldiçoados (PROVÉRBIOS 22.16 E 28.17). Há também uma alusão muito interessante aos pobres que vivem nessas condições por serem preguiçosos, a primeira parte do capitulo 6 e trechos do capitulo 23 e 28 desse livro  trata justamente disso. A passagem de implicação forte nesse livro é a que se segue: “Aquele que tapa os seus ouvidos ao clamor do pobre, também clamará, e não será ouvido.” (PROVÉRBIOS 21.13, TB)
 A pobreza, que de acordo com os preceitos deuteronômicos não poderiam fazer parte da sociedade hebreia, sociedade esta que serviria de modelo, é enfaticamente denunciada pelos profetas. Isaías revela que Deus começa a julgar os anciãos e seus lideres por causa total desprezo pelos pobres, ele ainda fala de homens que fraudavam os desvalidos e legisladores que criavam leis injustas que reprimiam o direito dos pobres[13]. Mostra, também, no trecho 5.8 homens que juntam propriedades e não deixam espaços para os pobres terem suas moradias. Esse profeta revela, ainda, que o Messias prometido traria um reinado de justiça, uma leitura nos trechos 11.4, 29.19 evidencia o que afirmamos. Por fim existe a promessa em Isaías 32.7 de serem agraciados todos aqueles que acolhessem os desamparados e mais adiante Deus revela claramente sua vontade no capítulo 58 onde lemos:
Porventura, não é este o jejum que escolhi: que soltes as ligaduras da impiedade desfaça as ataduras da servidão, deixes livres os oprimidos e despedaces todo jugo? Porventura, não é também que repartas o teu pão com o faminto, e recolhas em casa os pobres desabrigados, e, se vires o nu, o cubras, e não te escondas do teu semelhante? (VERS. 6,7)
Ezequiel 18 é apresentado uma lista de características de um homem justo, dentre essas características é citado a ajuda ao pobre. As denuncias feitas pelo profeta mostra que Israel tornou-se tão perverso quanto à cidade de Sodoma. O pecado de Sodoma era não cuidarem dos pobres. Em Ezequiel 16.49 encontramos o seguinte:         
Tão certo como eu vivo, diz o SENHOR Deus, não fez Sodoma, tua irmã, ela e suas filhas, como tu fizeste, e também tuas filhas. Eis que esta foi a iniquidade de Sodoma, tua irmã: soberba, fartura de pão e próspera tranquilidade teve ela e suas filhas; mas nunca amparou o pobre e o necessitado.(ARA)  
As acusações continuam com o profeta Jeremias, “sangue de pobres e inocentes” (JEREMIAS 2.34) estavam nas vestes da nação, o desprezo pelas leis causavam degradação social, desvio moral, desvio religioso, indiferentismo. O libelo de Amós se de ao fato de cobrança indevida de tributos aos pobres, que tiravam do mantimento, “trigo”, para sustentar corruptos que com opulência extorquiam os pobres. (cf. AMÓS 5.11), o castigo estava próximo de Israel, pois eles continuamente exploravam o pobre (AMÓS 2.6). Amós continua com a acusação contra Israel mostrando homens que controlavam dolosamente            a distribuição de alimentos enganando o povo e se aproveitando das condições de pobreza de alguns, reduzindo a escravidão homens e mulheres, diz o texto:
                                     Quem dera que a Festa da Lua Nova já tivesse terminado para que pudéssemos voltar a vender os cereais! Como seria bom se o sábado já tivesse passado! Aí começaríamos a vender trigo de novo, cobrando preços bem altos, usando pesos e medidas falsos e vendendo trigo que não presta. Os pobres não terão dinheiro para pagar as suas dívidas, nem mesmo os que tomaram dinheiro emprestado para comprar um par de sandálias. Assim eles se venderão a nós e serão nossos escravos! (AMÓS 8.5-6, NTLH)
O capitulo três do livro do profeta Malaquias, usado comumente nos discursos religiosos, de evangélicos protestantes, hoje a respeito do dizimo, Deus se mostra mais uma vez julgando o povo de Israel. O motivo? Desvio de conduta moral e religiosa, opressão e falta de auxilio aos necessitados. O versículo 10 desse capítulo Deus ordena que os dízimos sejam entregues para que haja mantimento, alimentos, que eram empregados ao sustento não só de sacerdotes e levitas, mas para os necessitados como viúvas, órfãos e estrangeiros, pois era o que a lei determinava e pode ser conferido em Deuteronômio 14.28,29 e 26.12,13.
Reitero o que foi dito no inicio desse texto: A igreja precisa se preocupar com a essa questão, afinal Deus se preocupa, pelo menos, é o que fica subentendido pelas pesquisas dos trechos bíblicos estudados até aqui.


Cada dia a natureza produz o suficiente para nossa carência. Se cada um tomasse o que lhe fosse necessário, não havia pobreza no mundo e ninguém morreria de fome.
Mahatma Gandhi

- Oaidson B Silva



[1]  Movimento religioso surgido nos Estados Unidos da América, que interpreta alguns trechos da bíblia dizendo que aqueles que são fiéis a Deus devem desfrutar de uma excelente situação na área financeira,  da saúde,  emocional, social, familiar, etc. (FONTE:HTTP://PT.WIKIPEDIA.ORG/WIKI/TEOLOGIA_DA_PROSPERIDADE  ; ACESSADO EM 13/09/12).
[2] BARTH. Pobreza em Dadiva e Louvor. São Leopoldo: Sinodal, 1986, p.351.
[3] QUEIROZ, Carlos Pinheiro. Eles herdarão a terra. Curitiba: Encontro, 1998, p.19.
[4] HARRIS, R. Laind. Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento, Trad. Gordon Chown, Edições Vida Nova, 1985. (todos os termos para o vocábulo “pobre”).
[5] YUASSA, Key. “O Homem Brasileiro como Objeto do Amor de Deus”, em a Evangelização do Brasil: Uma tarefa inacabada, onde estão contidas as palestras proferidas por vários autores no Congresso Brasileiro de Evangelização em Belo Horizonte – MG – 1983, São Paulo: Ed. ABU. , 1985, pp. 84 e 86.
[6] CAVALCANTI, Robinson. Igreja: Agencia de Transformação Histórica. VINDE e SEPAI, 1987, p12.
[7] Jean Jaques Rousseau em seu celebre discurso sobre A origem da desigualdade entre os homens e se ela é autorizada pela lei natural em 1753, como reposta a questão proposta pela academia de Dijon, disponível em www.livros_gratis/origem_desigualdades.html.
[8] COBERLLINI, Vital. Referências Patrísticas quanto aos Princípios da Doutrina Social da Igreja. Artigo publicado pela PUC
[9] TERTULLIANO. La Resurrezione dei morti, VII, 3-4. Traduzione, Introduzione e Note a cura, C.MICAELLI, Roma: Città Nuova Editrice, 1990.

[10] Gênesis 1.28,29
[11] Alusão aos documentos provenientes do Concilio Vaticano II, ocorrido de 1962 a 1965.
[12] Cf. Jó 20.19; 24.4; 24.9; 31.16.
[13] Cf. Isaías 3.10,11. 15; 10.1, 2; 32.7

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

TRATAMENTO AO ESTRANGEIRO SEGUNDO O ANTIGO TESTAMENTO



“... era estrangeiro, e hospedastes-me...” (JESUS CRISTO)




 As imigrações legais e, principalmente, ilegais tem se tornado o centro das atenções dos países da Europa e de outros países desenvolvidos
 Há quem diga que o mundo vive a maior crise humanitária, o número de deslocados e refugiados já ultrapassam a quantidade de pessoas nessas situações por ocasião da segunda guerra mundial. A estimativa é que hoje existem 60 milhões de pessoas deslocadas violentamente de suas casas por conta de conflitos políticos, étnicos e religiosos. Dessas 60 milhões cerca de 20 milhões tiveram que deixar seu país. Em 2014 a média de pessoas que tiveram que abonar suas casas e viver como estrangeiros foi de quase 42.500 pessoas por dia!
 O estudo que se segue faz parte de uma serie de estudos realizados para discutir a bíblia e a questão da pobreza.  Os estrangeiros que vagueiam sem terra, e por consequência, sem renda, acabam como marginais na  sociedade e sobrevivem em condições de total exclusão.  
  Que a igreja não feche os olhos para essa realidade.

ESTRANGEIROS, QUAL TRATAMENTO SEGUNDO ANTIGO TESTAMENTO.

 Os estrangeiros (gentio, não israelita) não deveriam ser maltratados, nem explorados. Jeová devota-lhes amor e os hebreus, também, deviam amá-los e cuidar desses estrangeiros. (cf. Deuteronômio 10.18,19). O argumento divino para que os hebreus agissem assim era simples: “Amai, pois, o estrangeiro, porque fostes estrangeiros na terra do Egito.” (DEUTERONÔMIO 10.19).
 Na lei judaica, presente em Deuteronômio 27.19, se algum judeu oprimisse algum adventício era amaldiçoado pela própria lei divina. A sobrevivência digna para o estrangeiro era assegurada por lei, se não conseguisse sustentar-se não poderia estar reduzido a uma condição de marginalidade social (cf. Levítico 25.35), as colheitas “nos campos, nas vindimas e olivais não poderiam ser de todo colhido após o varejamento, deviam sobrar alguns frutos daquela colheita afim de que os estrangeiros pudessem respigar alguma coisa deixada[1]”, o fato de os lavradores deixarem algumas respiga dava ao estrangeiro a oportunidade de juntar alimentos de uma forma digna e não mendigar.
 A pesquisa textual focada no Pentateuco leva-nos entender outro fator importante: a lei torna iguais, perante ela, estrangeiros e nativos. “Como o natural, será entre vós o estrangeiro que peregrina convosco; amá-lo-eis como a vós mesmos, pois estrangeiros fostes na terra do Egito. Eu sou o SENHOR, vosso Deus” [2]. (cf. Êxodo 14.29; Levítico 24.22; Números 9.15; Números 15.16). A discriminação racial não poderia ocorrer, haja vista a ordenança de Deus em tratar o estrangeiro com respeito e amor. O hebreu foi advertido por Deus para não perverter os direitos dos não hebreus. (cf. Deuteronômio 27.19).
 Outro tratamento interessante é que ao realizar algum empréstimo para o estrangeiro não era permitido a pratica de usura (cf. Levítico 25.35-37), também, este ao trabalhar deveria receber “seu salario antes do pôr-do-sol [3].
 Jó[4], enquanto questionava Deus, mostra claramente como um cidadão exemplar, também cuidava dos estrangeiros: “nunca deixei um estrangeiro dormir na rua; os viajantes sempre se hospedaram na minha casa.” (Jó 31.32)
 Há alguns exemplos de estrangeiros que tiveram êxito no antigo testamento, a ex-prostituta de Canaã Raabe (Josué 2) , o soldado hitita Urias (1Samuel 11), Rute a moça moabita ( Rute 1-4), Ornã o jebuseu (1 Crônicas 20), entre outros, deixando claro que os imigrantes, não formam esquecidos por Deus e nem pela lei.
  Nos Salmo 94.1-10 contidos no antigo testamento os autores em alguns casos clamam por justiça, destacamos um trecho a seguir:
         Ó SENHOR Deus, a quem a vingança pertence, ó Deus, a quem a vingança pertence, mostra-te resplandecente! Exalta-te, tu, que és juiz da terra; dá o pago aos soberbos. Até quando os ímpios, SENHOR, até quando os ímpios saltarão de prazer?  Até quando proferirão e dirão coisas duras e se gloriarão todos os que praticam a iniquidade?  Reduzem a pedaços o teu povo, SENHOR, e afligem a tua herança.  Matam a viúva e o estrangeiro e ao órfão tiram a vida. E dizem: O SENHOR não o verá; nem para isso atentará o Deus de Jacó. Atendei, ó brutais dentre o povo; e vós, loucos, quando sereis sábios? Aquele que fez o ouvido, não ouvirá? E o que formou o olho, não verá? Aquele que argui as nações, não castigará? E o que dá ao homem o conhecimento, não saberá? (ARC, GRIFO NOSSO)
 Os livros dos profetas também tratam de questões ligadas aos estrangeiros ora denunciando os hebreus de não cumprirem a lei divina, extorquindo e colocando os adventícios numa condição social lastimável, ora dando-lhes esperança mostrando que o Deus de Israel não se esqueceria dos estrangeiros.
 O profeta Isaías, por exemplo, fala que o estrangeiro não seria discriminado (cf. Isaías 56.3,6). Jeremias fala que uma das condições para se cumprir uma promessa para os hebreus, estes deviam cuidar dos estrangeiros (cf. Jeremias 7.1-7), e, ainda em Jeremias, os hebreus são convocados a executar o direito e a justiça, “... não oprimindo o estrangeiro...” (Jeremias 22.3). O profeta Zacarias e o profeta Malaquias, também, clamam contra a opressão imposta a estrangeiros (cf. Zacarias 7.10; Malaquias 3.5).
  O entendimento formado a partir do antigo testamento no que tange ao estrangeiro, no mínimo deve ser o de respeito, direito a uma vida digna, emprego não exploratório e que não haja discriminação para os adventícios existentes.    O cristianismo que adota o antigo testamento com escritura divinamente inspirada deve estar de olhos abertos e braço estendido para aqueles que procuram refugio.
Parnaíba 14 de outubro de 2015



[1] Pesquisa realizada no texto “Amara ao estrangeiro” de Nicolleta Crostti, p.7
[2] Levítico 19.34
[3] Texto de Deuteronômio 24.15 ARA.
[4] Personagem do livro veterotestamentário que leva o mesmo nome, onde narra a trágica história de um homem que sofre com o mal, mais por fim tem o seu sofrimento transformado em bem-aventuranças.